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Do ci-datus à cidade reivindicada pelas mulheres

Publicado por:
Roberta Gresta
Foto: Mídia Ninja / Local: BH-MG
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Em mais uma das geniais lições de semântica do professor Rosemiro Pereira Leal, aprendi que “cidade” vem de ci-datus, o “lugar dado”. O cidadão, habitante da cidade, é o povo adotado pelos civis, é o “povo civilizado”.

Há um universo de questões que daí decorre, sobre os limites constituintes de um Direito não pensado pelos “civis” para integrar a todos. Nelas tenho sido capaz de mergulhar levando como tubo de oxigênio a teoria processual neoinstitucionalista, de autoria do professor.

Mas, entre mergulhos profundos, é preciso voltar à superfície.

Ontem, 29/09/2018, foi dia de, dessa superfície, olhar a cidade. E isso é necessário porque, cada vez menos, ela nos é um lugar dado.

Digo mais.

Para nós, mulheres, a cidade nunca foi um lugar dado. Pisar nas ruas é sempre nosso ato de reivindicação de que a cidade seja nossa também.

Reivindicar o nosso andar livre, desafiando o risco que pode estar em cada esquina.

É luta toparmos mover nossos corpos no espaço público, apesar da hostilidade de olhares e comentários que não nos percebem pessoas, mas, sim, como objetos. É heroísmo fazermos isso a despeito da probabilidade de a violência misógina resolver dar as caras a qualquer momento.

Somos lutadoras e heroínas, todos os dias, quando enfrentamos, no cotidiano, as ameaças do sistema de gênero, dentro do qual tivemos que aprender a nos defender.

Mas, ontem, fomos juntas ocupar espaços, com a nossa existência.

Pisamos na cidade pra fazer de cada passo um ato político, porque feminismo é política. Levamos nossos corpos unidos, como potência da coragem de que somos feitas. Usamos nossas vozes pra gritar #elenão, com o que expressamos nossa recusa a que as coisas se tornem ainda piores pra nós.

Muitos homens marcharam conosco.

Reivindicamos a cidade como espaço da liberdade. Reivindicamos uma cidadania, diversa daquela dada pelo patriarcado civil, pela qual cada um dê a si mesmo seu lugar na cidade. Reivindicamos a democracia como linguagem de inclusão: feminista, anti-rascista, anti-homofóbica, anti-elitista.

Há muito por fazer até conquistarmos tudo isso. Mas ontem fiquei feliz por ver que somos capazes de fazer o que é preciso.

Sobre a autora
Roberta Gresta

Cresceu ouvindo que era uma menina "cheia de opinião", teimosa, atrevida e inconformada. Um dia, entendeu que esses eram seus melhores atributos pra ser uma mulher capaz de fincar pé nesse mundo de homens. Por isso, escreve.

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