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#EleNão, mas nem aqueles: o gozo fálico dos anti-feministas não vai nos impedir de fazer política

Publicado por:
Roberta Gresta
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O grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” vem sendo alvo de hackers. Já por duas vezes, o ataque consiste em alterar o nome do grupo, trocando o “contra” pelo “com”, e em invadir perfis para fazer postagens ofensivas. Ontem, a proprietária do grupo chegou a ser excluída. A informação é que o grupo foi suspenso para fins de investigação.

Que haja idiotas para fazer esse ataque, a despeito de a mobilização nas redes ser apenas um reflexo da alta rejeição de Bolsonaro entre mulheres, especialmente as mais pobres, não surpreende. Também não surpreende misóginos acharem que isso é algum tipo de vitória. Afinal, tudo pra eles se resolve no gozo fálico, essa exibição orgulhosa de sua ejaculação como prova de seu prazer e do não-prazer das mulheres.

Fábio Lúcio Tavares explica: “O gozo fálico corresponderia à energia dissipada durante a descarga parcial, tendo como efeito um alívio relativo, um alívio incompleto da tensão inconsciente. Essa categoria de gozo é chamada fálica porque o limite que abre e fecha o acesso à descarga é o falo; Freud diria: o recalcamento. De fato, o falo funciona como uma comporta que regula a parcela de gozo que sai (descarga) e a que permanece dentro do sistema inconsciente (excesso residual).”

“Eu tenho, você não tem”, já diria o obsessivo – sabendo que no fundo algo lhe falta. É uma ameaça que mulheres se reúnam aos milhões para compartilhar um entendimento que a ele é inacessível. Impossível lidar com o pesadelo da castração. Afinal, o que tramariam essas mulheres em um espaço no qual se consideram sujeitos bastantes em si?

Se não há como acessar, como objetificar, é preciso simbolicamente destruir. Na fantasia, a troca do nome do grupo é o subjugo de 2 milhões de mulheres: “vocês não são o que dizem ser, são o que nós dizemos que são”. Algo evidentemente ausente no real, mas que funciona no imaginário como a supressão do gozo do outro.

Aderem a isso os que riem da capacidade “de zoar”. Li nas redes que “galera não tem limites”. O deboche é também o gozo fálico, mas como visto, ele tem limites, ele é recalcado. Riam o quanto quiserem, as mulheres atacadas seguem tendo a opinião que tinham.

É ocasião de se dizer que deboche e desdém masculinos são constantemente enfrentados por mulheres que fazem do feminismo sua linguagem. E não apenas por parte de homens abertamente misóginos. Há um esforço de desqualificação do feminismo como fator de mobilização mesmo por parte de homens ditos progressistas.

Nessa semana, um deles me disse que era um erro associar o movimento das mulheres a um termo “queimado” como o feminismo. Outro, ironizou a ideia de que “as feministas” possam se considerar responsáveis pela derrota de Bolsonaro. Um terceiro me indagou: “há mesmo número significativo de mulheres antifascistas? Acho que as redes sociais passam a impressão errada”.

O machismo se revela nessa recusa ao reconhecimento do modo como as próprias mulheres se elaboram como sujeitos. O esforço por invisibilizar ou dissipar um significante feminino é a tentativa de afirmar o domínio masculino. Como se só pudéssemos existir pelos modos legitimados pelos homens. Como se dependêssemos da aprovação masculina, não apenas para viver no mundo dos homens mas, quem diria, para transformá-lo em nosso também.

O que os apavora é a possibilidade do nosso gozo sem forma, sem sinais visíveis, a se espalhar sem controle. A urgência que sentem é a de delimitar até onde podemos ir. Os hackers exigiram das moderadoras do grupo que se retirem, ou exporão os dados privados. Os autointitulados progressistas minam sutilmente nossa potência coletiva, com alfinetadas de sua arrogância a nos dizer “deixem a histeria de lado, ou não as levaremos a sério”.

Escapa a todos que tenhamos nos tornado muito mais capazes de decifrar sua lógica do que eles a nossa. Acostumadas que fomos a observar, a captar o desejo do outro, fizemos disso enfim algo de útil para nós mesmas. Aprendemos a ler nessas atitudes de intimidação o medo dos homens de sua impotência. Isso não significa que a violência não nos atinja, mas o importante é que percebemos o ridículo da covardia e encontramos meios próprios para reagir.

Como assume Stelio de Carvalho Neto, “a ejaculação não é garantia de gozo: os homens também fingem orgasmo, frequentemente para eles mesmos.” É algo que fica cada vez mais claro para as mulheres diante das afirmações de virilidade, superioridade e controle que tentam mascarar, mas apenas expõem, a fragilidade de egos masculinos.

Invadam grupos, agridam, debochem. Cada exibição patética de brutalidade machista, real ou simbólica, aumenta a certeza de que a democracia precisa ser feminista, ou não será.

Sobre a autora
Roberta Gresta

Cresceu ouvindo que era uma menina "cheia de opinião", teimosa, atrevida e inconformada. Um dia, entendeu que esses eram seus melhores atributos pra ser uma mulher capaz de fincar pé nesse mundo de homens. Por isso, escreve.

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