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Por que o patriarcado precisa tanto “defender a família”?

Publicado por:
Rita Almeida
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Não é necessário ter lido Freud para saber que o “primeiro pai” na espécie humana foi um tirano perverso que, por meio da força, mantinha a mulher e a prole sob seu jugo, a fim de satisfazer suas necessidades, inclusive as sexuais. A civilização humana, portanto, só foi possível pelo movimento de libertação de mulheres e filhos do jugo desse pai perverso. Freud afirmou que, num passado mítico, o “primeiro pai” precisou ser morto pelos filhos para que a civilização se desenvolvesse. Desse assassinato, nasce um pacto de irmandade, a primeira lei, por meio da qual todos se comprometeram a nunca mais ocupar o lugar do pai tirânico: a interdição do incesto. 

Assim é possível entender que, estruturalmente falando, toda família pode reativar o pai perverso, tirânico e gozador primordial. Por isso, todo esforço civilizatório significa conseguir romper com a família nuclear.

A família é a estrutura que possibilita ao ser humano entrar mundo, mas, paradoxalmente, é a mesma que pode condená-lo à servidão, ao abuso ou mesmo à morte (real ou subjetiva). Não por acaso, Freud inventa a sua psicanálise escutando os pacientes denunciarem abusos, traumas e intrigas familiares. Vista sob a ótica freudiana, a família não é um ninho seguro e amoroso que cuida e acolhe, mas, sobretudo, a fonte primeira de nossos traumas e sofrimentos. 

É por isso que a romantização da família é um erro. É ingênuo acreditar que ela seja boa em si. A melhor família é aquela que compreende seu componente perverso, e que, por isso, se ocupa em lançar os filhos para fora de si.

A família é uma espécie de mal necessário, que precisa ser superada por cada um no seu esforço de maturidade. O pai sempre precisará ser “morto” por cada um e a cada vez, este foi o argumento freudiano ao retomar o Édipo para falar da família nuclear. O Édipo nunca foi uma história bobinha sobre papai, mamãe e filhinho, como se interpreta por aí. Sendo assim, todo discurso que busca romantizar a família ou promover o resgate de um pai ideal – perfeito ou poderoso – segue o caminho contrário do movimento civilizatório, e facilita a perversão. Não por acaso os abusadores mais comuns de mulheres e crianças são os pais, padrastos, tios ou seus substitutos: padres, pastores, gurus ou líderes de qualquer espécie.

Fiz esse preâmbulo para dizer dos rumos que o atual governo vem anunciando com seu discurso e suas medidas políticas, especialmente no campo da educação. Dentre as palavras de ordem do governo, “em defesa da família”, é um dos carros chefe.

Não qualquer família, obviamente, mas a família ideal do patriarcado composta por pai/homem, mãe/mulher e filhos/heteronormativos. Tal família é considerada a fonte de todo o bem e toda a virtuosidade, cabendo a ela a tarefa de cuidar, inclusive, da educação sexual das crianças, ou até mesmo assumir a escolarização das mesmas, por meio do chamado “ensino domiciliar”. 

Portanto, contrariando o atual governo, garantir que a escolarização de todas as crianças seja feita fora do núcleo familiar, não é apenas uma forma de democratizar o acesso ao ensino formal, é ainda mais básico: é proteção elementar contra a tendência familiar perversa, é civilizatório, é promotor de saúde mental e de segurança para nossas crianças.

A interdição do incesto – lei que funda a civilização – diz basicamente o seguinte: as questões relativas à sexualidade devem ser vivenciadas e aprendidas fora do núcleo familiar. E se compreendemos que sexualidade não é apenas sexo, mas todo laço feito fora das relações incestuosas, compreendemos a importância da escola como lugar social para a criança.

Papai e mamãe são aqueles que apresentam a criança ao mundo, o desejo deles nessa empreitada é importante e fundamental, mas é igualmente importante que tal criança seja endereçada para fora. E se ela não for endereçada (quem trabalha em qualquer política ou instituição que lida com a infância tem notícia de crianças “aprisionadas” em famílias perversas, onde sofrem abusos de todo tipo), é necessário que seja resgatada pela sociedade; trata-se do pacto civilizatório assumido um dia. Papai e mamãe amam suas crianças na mesma medida em que podem subjugá-las, massacrá-las e adoecê-las. Se a família fosse o núcleo de toda a bondade e felicidade que os “defensores da família” tanto pregam, minha profissão (psicóloga/psicanalista) nem existiria. 

Lugar de toda criança é na escola, sim!

Não pode haver nenhuma dúvida quanto a isso.


*O lugar da fala acolhe a expressão de cada uma. As autoras do blog não interferem nas escolhas das colaboradoras quanto ao uso da linguagem, ao estilo de escrita, à gramática e à sintaxe. A revisão feita é meramente técnica, para correção de eventuais erros de digitação, todo o resto será tratado como opção de estilo da autora.

Sobre a autora
Rita Almeida

Psicóloga e psicanalista. Trabalhadora da Rede de saúde mental do SUS. Mestre e Doutora em Educação. Membro do Ato Freudiano de Juiz de Fora (MG).

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