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A síndrome de que eu não sou boa o suficiente

Publicado por:
Tailaine Costa
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“Nós sofremos interceptação quando a madrasta que existe em nós e/ou à nossa volta nos diz que, para começar, não valemos muito e insiste em que nos concentremos nas nossas falhas, em vez de perceber a crueldade que gira ao redor – seja dentro da psique, seja dentro da cultura.” –  Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés

Nos meus debates internos, conversando com amigas, das mais diversas áreas de atuação, dos mais variados graus de instrução, bem como realizando o convite a mulheres para participarem de eventos acadêmicos me deparo sempre com o questionamento “não sou boa nisso, tem gente que faz melhor, tem gente que sabe mais”. Quando erramos – e sempre erraremos, como todo e qualquer ser humano – projetamos a falha em nós, como se este erro fosse nosso e nos contaminasse para o que faríamos dali em diante.

Estes dias, lendo uma reportagem, me deparei com uma pesquisa na qual um professor analisou o discurso dos alunos de programação. Quando homens erravam falavam: “o que há de errado no meu cálculo”. Já quando as mulheres erravam falavam: “onde está meu erro”. Pode parecer bobo e pouco significante, mas isso é muito simbólico. Quantas vezes por medo recuamos e não nos atiramos do alto, por não nos considerarmos boas o suficiente, com medo do erro. Logo do erro. Com medo – e não sem fundamento – que nos seja carimbado na testa um título de incompetência, recuamos ou projetamos em nós essas falhas. No mundo acadêmico, em diversos momentos é utilizada a desculpa de que “não há mulher que fale sobre o tema” – como se fosse possível fazer esta afirmação. Ou então vem a desculpa da titulação, enquanto inúmeros homens ocupam este espaço, sem formação. A impressão é que para uma chegar a ocupar o espaço, tem que ser a espetacular, enquanto ao homem o acesso é possível ao mediano. Essa valorização reflete em diversas áreas, não apenas profissional. Para uma mulher ser chamada de “boa mãe” é praticamente uma dedicação total, entrega, sofrimento, no melhor estilo “no pain, no gain”. Já para o pai, poxa, se ele sai passear, troca fraldas,  paga pensão e vê a criança a cada quinze dias, ele é sensacional. Vivendo neste mundo de exigência sobre nós, introjetamos a noção de que nunca somos boas o suficiente, sempre há quem faça mais, saiba mais, seja melhor. E com isso nos boicotamos! Chamo isso de “síndrome de não sou boa o suficiente”, e digo, sofro dela como a maioria das mulheres – para não dizer todas. É uma luta diária com esta doença, que mora em nós e cresceu conosco. A cada dia preciso olhar para mim mesma e pensar: “sou boa sim”.

É importante percebermos que não estamos sozinhas. E é bem ai que a rede de apoio, principalmente de mulheres, é fundamental. A luta é mais fácil –  talvez apenas possível – quando compartilhada.  Dividir nossas angustias e inseguranças torna o monstro em um moinho de vento. É preciso pensar em mulheres como rede e enquanto rede. Apesar de na infância sermos acostumadas a brincar em jogos coletivos, com o passar dos anos nos é colocado “goela abaixo” a necessidade de competitividade com outras mulheres. E é difícil vencer o ciclo. Ver na outra alguém que pode te ajudar a descobrir o caminho, a te ajudar a superar os desafios e não alguém que quer tomar seu lugar. A isso intitulei de “síndrome da abelha rainha”, uma síndrome social. Quantas vezes nas capas de jornais vemos chamadas de brigas entre mulheres do mesmo ramo artístico, as quais as vezes – sempre – desconfio da veracidade. Como se apenas uma pudesse reinar, sendo que este desejo nem sempre vem delas, é uma criação para gerar polêmica. Incrivelmente não vemos a mesma artimanha publicitária em relação aos homens, quantos têm o mesmo estilo musical, mesmo perfil de atuação e nunca são colocadas briguinhas entre eles. O fato é que a síndrome da abelha rainha – que está na sociedade – nos força a viver em um mundo demasiadamente competitivo, no qual nem sabemos o que está em disputa. Somadas as síndromes (do não sou ao suficiente e da abelha rainha) quem perde é a conquista de espaços pela mulher. A luta é diária, a cada dia também me convenço de que sou sim boa e não há motivos para recuar. Pois se der medo, vai com medo mesmo!

Sobre a autora
Tailaine Costa

Feminista em construção. Mulher em busca de uma sociedade mais igualitária. Acredita que o céu é o limite para os sonhos. Apaixonada por política. Amante de boas discussões. Encantada, por necessidade, pela resistência.

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