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Cat Person – de Kristen Roupenian

Publicado por:
Ana Lopes
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Tradução livre por Ana Lopes.

Margot conheceu Robert em uma quarta à noite mais para o fim do ano. Ela estava trabalhando na bomboniere do cinema alternativo do centro da cidade quando ele chegou e comprou uma pipoca grande e uma caixa de alcaçuz.

“Essa é uma escolha… incomum,” ela disse. “Eu acho que eu nunca vendi uma caixa de alcaçuz antes.”

Flertar com os clientes era um hábito que ela havia adquirido enquanto trabalhava como barista, melhorava as gorjetas. Ela não recebia gorjetas no cinema, mas o trabalho era entediante, e ela realmente achou Robert bonito. Não tão bonito a ponto de ela o abordar numa festa, por exemplo, mas bonito o suficiente para que desenvolvesse uma queda imaginária se ele tivesse sentado perto dela em uma aula maçante – embora tivesse certeza de que ele não estava na faculdade, tinha uns vinte e tantos no mínimo. Ele era alto, o que era bom, e ela podia ver a borda de uma tatuagem se insinuando por baixo da manga dobrada da sua camisa. Mas ele era um pouco pesado, com a barba meio longa demais, e tinha os ombros levemente curvados para a frente, como se estivesse protegendo algo.

Robert não percebeu o flerte. Ou, se percebeu, demonstrou apenas dando um passo para trás, como se para fazer com que ela se inclinasse em direção a ele, tentasse com um pouco mais de afinco. “Bom,” ele disse. “Tá certo, então.” Ele colocou o troco no bolso.

Mas na semana seguinte ele veio ao cinema novamente, e comprou outra caixa de alcaçuz. “Você está ficando melhor no seu trabalho,” ele falou para ela. “Você conseguiu não me ofender dessa vez.”

Ela deu de ombros. “Eu quero ser promovida, é por isso,” ela disse.

Depois do filme, ele voltou. “Moça do balcão, me dê o seu telefone,” ele disse e, surpreendendo até a si mesma, ela o deu.

 

A partir daquela pequena conversa sobre alcaçuz, nas próximas semanas eles construíram uma elaborada teia de piadas por mensagens de texto, bordões que se desdobravam e se alteravam tão rapidamente que ela às vezes tinha dificuldade de acompanhar. Ele era muito perspicaz, e ela descobriu que teria que se esforçar para impressioná-lo. Logo notou que quando enviava uma mensagem para ele, ele geralmente retornava imediatamente; mas se ela demorasse mais de algumas horas para responder, a próxima mensagem era sempre curta e não incluía uma pergunta, então era ela quem tinha que retomar o diálogo, o que sempre fazia. Algumas vezes aconteceu de ela se distrair por uns dias e se perguntar se o papo iria morrer completamente, mas então ela pensava em algo engraçado para falar ou via uma imagem na internet que tinha a ver com alguma conversa anterior e eles começavam tudo de novo. Ela ainda não sabia muito sobre ele, porque eles nunca conversavam sobre assuntos pessoais, mas quando conseguiam engatar duas ou três piadas boas seguidas surgia uma espécie de euforia, era como se eles estivessem dançando.

Durante uma noite de estudos, ela reclamou que todas as cantinas estavam fechadas e que não tinha comida no quarto porque sua colega de quarto dela havia saqueado a reserva de petiscos, e ele se ofereceu para comprar uma caixa de alcaçuz para alimentá-la. Inicialmente ela fez uma piada para desbaratinar, porque ela realmente precisava estudar, mas ele disse, “Não, sério, pare de se enrolar a venha agora,” então ela colocou uma jaqueta por cima do pijama e o encontrou na frente de uma loja de conveniência.

Era mais ou menos onze horas. Ele a cumprimentou sem cerimônia, como se a visse todo dia, e a levou para dentro para escolher alguma coisa para comer. A loja não tinha alcaçuz, então ele comprou uma raspadinha de Coca sabor cereja e um pacote de Doritos e um isqueiro no formato de um sapo com um cigarro na boca.

“Obrigada pelos presentes,” ela disse quando saíram da loja. Robert estava usando um chapéu de pele de coelho que cobria as orelhas e uma jaqueta espessa e antiquada. Ela pensou que ele ficava bem assim, ainda que um pouco pateta; o chapéu contribuía com a aura de lenhador dele, e o casaco pesado escondia a barriga e o cair meio triste dos seus ombros.

“De nada, moça do balcão,” ele disse, apesar de já saber seu nome. Ela pensou que ele ia beijá-la e se preparou para se desviar e oferecer a bochecha, mas ao invés de beijá-la na boca ele a puxou pelo braço e a beijou suavemente na testa, como se ela fosse algo precioso. “Estude bastante, mocinha,” ele disse. “Te vejo em breve.”

Caminhando de volta para o dormitório, ela se sentiu tomada por uma leveza cintilante que reconheceu como o sinal dos primeiros estágios de uma paixonite.

Enquanto ela estava de férias na casa dos pais, eles trocavam mensagens quase o tempo todo, não só com piadas, mas também com atualizações sobre seus dias. Eles começaram a mandar bom dia e boa noite, e quando ela enviava uma pergunta e ele não respondia na hora, ela sentia uma pontada de ansiedade. Ela descobriu que Robert tinha dois gatos, chamados Mu e Yan, e juntos eles inventaram uma história elaborada na qual a gata de infância dela, Pita, flertava com Yan por mensagens de texto, mas quando Pita falava com Mu ela era formal e seca, porque tinha ciúmes do relacionamento entre Mu e Yan.

“Por que você está no celular o tempo todo?” o padrasto da Margot perguntou no jantar. “Você está tendo um caso com alguém?”

“Sim,” disse Margot. “O nome dele é Robert e eu o conheci no cinema. Estamos apaixonados, e provavelmente vamos nos casar.”

“Hmm,” disse o padrasto. “Diga que nós temos algumas perguntinhas para ele.”

“Meu pais tão perguntando de vc,” digitou Margot, e a resposta de Robert foi um emoji com corações no lugar dos olhos.

 

Quando Margot voltou ao campus da faculdade, ela estava ansiosa para ver Robert novamente, mas ele se mostrou arredio. “Desculpa, semana corrida no trabalho,” ele respondeu. “Prometo ver vc logo.” Margot não gostou disso; parecia que a dinâmica tinha mudado de forma a desfavorecê-la, e quando ele finalmente a chamou para ver um filme, ela concordou imediatamente.

O filme que ele queria assistir estava passando no cinema em que ela trabalhava, mas ela sugeriu que eles fossem a um grande multiplex fora da cidade; alunos geralmente não iam lá, porque era preciso ir de carro. Robert apareceu para buscá-la em um Honda Civic branco sujo e cheio de papéis de bala nos porta-copos. Durante o trajeto ele estava mais quieto do que o esperado, e quase não olhou para ela. Não se passaram nem cinco minutos e ela já estava incrivelmente desconfortável, e, enquanto eles entravam na rodovia, deu-se conta de que ele poderia levá-la a algum lugar, estuprá-la e matá-la; afinal de contas, Margot não sabia praticamente nada sobre ele.

Assim que ela pensou isso, ele disse, “Não se preocupe, eu não vou te matar,” e ela se perguntou se o desconforto dentro do carro não era culpa dela, porque estava se comportando de um jeito nervoso e sobressaltado, exatamente como o tipo de garota que pensava que seria morta toda vez que ia a um encontro.

“Tudo bem – pode me matar se você quiser,” ela disse, e ele riu e deu uma batidinha no joelho dela. Mas ele continuou constrangedoramente silencioso, e todas as animadas tentativas dela de começar uma conversa pareciam bater nele e voltar. No cinema ele fez uma piada sobre alcaçuz com o caixa da bomboniere, mas ela fracassou de um jeito que deixou todo mundo sem graça, Margot em especial.

Durante o filme ele não segurou sua mão ou passou o braço por trás dela, então quando eles voltaram para o estacionamento ela tinha quase certeza de que ele tinha mudado de ideia sobre gostar dela. Ela estava usando calça legging e moletom, e talvez isso fosse o problema. Quando ela entrou no carro ele disse “Que bom que você se arrumou pra mim,” o que ela tomou como uma piada, mas talvez ela realmente o tivesse ofendido ao parecer não levar o encontro a sério o suficiente, ou algo do tipo. Ele estava usando calça cáqui e camisa social.

“E aí, quer beber alguma coisa?” ele perguntou quando voltaram para o carro, como se ser educado fosse uma obrigação imposta a ele. Para Margot parecia óbvio que ele estava esperando que ela dissesse não e que, quando ela falasse isso, eles jamais conversariam novamente. Isso a deixou triste, não tanto porque ela queria continuar a passar tempo com ele, mas mais porque ela havia tido tantas expectativas em relação a ele durante as férias que não parecia justo que as coisas desmoronassem tão rapidamente.

“A gente poderia tomar alguma coisa, de repente,” ela disse.

“Se você quiser,” ele disse.

“Se você quiser” foi uma resposta tão desagradável que ela sentou quieta no carro até ele cutucá-la na perna e dizer, “Por que você está chateada?”

“Eu não estou chateada,” ela disse. “Só um pouco cansada.”

“Eu posso te levar pra casa.”

“Não, seria bom tomar alguma coisa depois daquele filme.” Apesar de estar passando no cinema comercial, o filme que ele tinha escolhido era um drama bem deprimente sobre o Holocausto, tão inapropriado para um primeiro encontro que quando ele o sugeriu ela disse, “haha vc tá falando sério?” e ele fez alguma piada sobre como sentia muito por ter avaliado mal o gosto dela, e falou que poderia levá-la para ver uma comédia romântica.

Mas agora, quando ela falou isso sobre o filme, ele se retraiu um pouco, e uma interpretação completamente diferente da noite passou pela cabeça dela. Ela se perguntou se talvez ele não havia tentado impressioná-la sugerindo o filme do Holocausto, porque ele não entendia que um filme do Holocausto era o tipo errado de “filme sério” com o qual impressionar o tipo de pessoa que trabalhava em um cinema descolado, o tipo de pessoa que ele provavelmente presumia que ela era. Quem sabe, ela pensou, a mensagem “haha vc tá falando sério?” o tinha magoado, intimidado, feito com que se sentisse desconfortável perto dela. A ideia dessa possível vulnerabilidade a comoveu, e ela sentiu mais ternura por ele do que em qualquer outro momento da noite.

Quando ele perguntou aonde ela queria ir, ela mencionou o lugar que geralmente frequentava, mas ele fez uma careta e disse que ficava no gueto estudantil e que ele a levaria a um local melhor. Eles foram a um bar que ela não conhecia, um boteco subterrâneo com uma pegada clandestina, sem letreiro algum anunciando sua presença. Tinha fila para entrar, e, enquanto eles esperavam, ela ficou inquieta tentando pensar em uma forma de dizer a ele o que precisava dizer a ele, mas não conseguia, então quando o segurança pediu seu documento, ela simplesmente o entregou. O segurança mal olhou; ele apenas sorriu e disse, “É, não,” e sinalizou para que ela saísse do caminho enquanto ele chamava o próximo grupo de pessoas na fila.

Robert tinha ido na frente, sem notar o que estava acontecendo atrás dele. “Robert,” ela disse baixinho. Mas ele não se virou. Finalmente, alguém na fila que havia prestado atenção bateu no ombro dele e apontou para ela, abandonada na calçada.

Ela ficou lá, mortificada, enquanto ele caminhava em sua direção. “Desculpa” ela disse. “Isso é tão constrangedor.”

“Quando anos você tem?” ele questionou.

“Eu tenho vinte,” ela disse.

“Ah,” ele disse. “Eu achei que você tinha falado que era mais velha.”

“Eu te falei que eu estava no segundo ano!” ela disse. Estar em pé fora do bar, tendo sido rejeitada na frente de todo mundo, já era humilhante o suficiente, e agora Robert ainda a estava olhando como se ela tivesse feito algo de errado.

“Mas você tirou aquele – como é que você chamou? Aquele ano sabático,” ele contra-argumentou, como se essa fosse uma discussão que ele pudesse vencer.

“Nem sei o que te dizer,” ela disse desamparada. “Eu tenho vinte anos.” Então, por mais ridículo que fosse, ela começou a sentir lágrimas enchendo seus olhos, porque de alguma forma tudo tinha dado errado e ela não entendia porque isso era tão difícil.

Mas quando Robert viu seu rosto se apertar, algo mágico aconteceu. Toda a tensão se esvaiu da postura dele; ele se endireitou e a engolfou com seus braços de urso. “Ah, coitadinha,” ele disse. “Ah, tadinha, está tudo bem, está tudo certo. Por favor, não se sinta mal.” Ela se deixou dobrar contra ele, e ela se sentiu inundada pelo mesmo sentimento que teve na frente da loja de conveniência – que ela era uma coisa delicada e preciosa que ele tinha medo de poder quebrar. Ele beijou o topo da sua cabeça, ela riu e enxugou as lágrimas.

“Eu não acredito que estou chorando porque não me deixaram entrar num bar,” ela disse. “Você deve me achar uma idiota.” Mas ela sabia que ele não pensava isso por causa do jeito que ele olhava para ela; nos olhos dele ela podia ver o quão bonita estava, sorrindo apesar das lágrimas sob a pálida luz da rua, com alguns flocos de neve caindo.

Então ele a beijou, nos lábios, de verdade; ele veio a ela como que em um ímpeto e praticamente despejou a língua pela garganta dela abaixo. Foi um beijo horrível, chocantemente ruim; Margot tinha dificuldade de acreditar que um homem feito pudesse beijar tão mal. Foi terrível, no entanto isso tornou a despertar nela aquele sentimento terno por ele, a sensação de que mesmo que ele fosse mais velho, ela sabia algo que ele não sabia.

Quando ele terminou de beijá-la, ele a tomou firmemente pela mão e a levou a um bar diferente, onde havia mesas de sinuca e máquinas de pinball e serragem no chão e ninguém pedindo documentos à porta. Em umas das cabines ela viu o aluno que havia sido o monitor dela de Inglês no primeiro ano da faculdade.

“Quer que eu peça uma bebida docinha pra você?” Robert perguntou, e ela achou que deveria ser uma piada sobre o tipo de álcool que universitárias consumiam, embora ela nunca tivesse experimentado uma bebida dessas. Na verdade, ela estava um pouco ansiosa em relação ao que pedir; nos lugares aonde ela ia só se exigia o RG na hora de fazer o pedido, então o pessoal que já tinha vinte e um anos ou que tinha um bom documento falso geralmente pegava uma Bud ou uma Heineken para dividir com todo mundo. Ela não sabia se Robert tiraria sarro dessas marcas, então, ao invés de ser específica, ela disse, “Eu vou querer uma cerveja.”

Com as bebidas no futuro e o beijo no passado, e talvez também porque ela tinha chorado, Robert ficou muito mais relaxado, mais parecido com a pessoa espirituosa que ela conhecia por mensagem. À medida que eles conversavam, ela tinha mais e mais certeza de que o que ela inicialmente interpretara como raiva ou insatisfação em relação a ela era, na realidade, nervosismo, um receio de que ela não estivesse se divertindo. Ele mencionou várias vezes que ela não tinha gostado da escolha do filme, fez piadas que esbarravam no assunto e a observou atentamente para registrar sua reação. Ele a provocou por seu gosto intelectualizado, e disse que era muito difícil impressioná-la por causa de todas as matérias de cinema que havia feito, mesmo sabendo que ela só tinha feito um curso de verão sobre o tema. Ele brincou que ela e os outros funcionários do cinema em que ela trabalhava provavelmente ridicularizam as pessoas que iam aos grandes multiplex, onde nem ao menos se servia vinho e alguns filmes eram em 3D.

Margot riu da chacota que ele fazia em cima dessa versão imaginária de si mesma, dessa cinéfila esnobe inventada, embora nada do que ele dissesse soasse perfeitamente justo, até porque era ela quem tinha sugerido ver o filme em um cinema comercial. Mas, pensando bem, talvez isso também tivesse magoado Robert. Ela pensava que era óbvio que só não queria ir a um encontro no seu local de trabalho, mas talvez ele tivesse levado para o pessoal; talvez ele suspeitasse que ela tivesse vergonha de ser vista com ele. Ela estava começando a acreditar que o entendia – o quão sensível ele era, o quão facilmente atingível – e isso fez com que se sentisse mais próxima dele, e também poderosa, pois se soubesse como feri-lo, também saberia como consolá-lo. Ela fez várias perguntas sobre os filmes dos quais ele gostava, falou depreciativamente dos filmes artísticos que ela julgava entediantes ou inescrutáveis; contou a ele o quanto seus colegas mais velhos a intimidavam, e como às vezes se preocupava com não ser esperta o suficiente para ter uma opinião própria sobre as coisas. O efeito disso nele foi palpável e imediato, e ela se sentiu como se estivesse afagando um animal grande e inquieto, como um cavalo ou um urso, persuadindo-o competentemente a comer da sua mão.

Na terceira cerveja ela começou a pensar sobre como seria transar com Robert. Provavelmente seria como aquele beijo ruim, desajeitado e excessivo, mas ao imaginar o quão excitado ele estaria, o quão faminto e ansioso para impressioná-la, ela sentiu uma fisgada de desejo puxá-la pela barriga, tão distinta e dolorosa quanto o estalo de um elástico contra sua pele.

Depois de terminar aquela rodada de bebidas, ela disse corajosamente, “Então, vamos dar o fora daqui?” e por um instante ele pareceu magoado, como se achasse que ela estava terminando o encontro abruptamente, mas ela segurou sua mão e o puxou, e a expressão no seu rosto quando percebeu o que ela estava dizendo e a forma obediente como a seguiu bar afora causaram aquela sensação do estalo elástico novamente; ele estar com a palma da mão suada, estranhamente, também gerou o mesmo efeito.

Lá fora ela deu abertura para um segundo beijo, mas, para a surpresa dela, ele lhe deu apenas um selinho. “Você está bêbada,” ele disse acusatoriamente.

“Não, não estou,” ela disse, apesar de estar. Ela pressionou seu corpo contra o dele, sentindo-se comparativamente minúscula, e ele soltou um belo suspiro oscilante, como se ela fosse algo brilhante e penoso demais de se contemplar, e aquilo era excitante também, que ele a fizesse se sentir como uma tentação irresistível.

“Vou te levar pra casa, sua peso leve,” ele disse, guiando-a para o carro. Mas assim que entraram no carro ela se inclinou em sua direção mais uma vez, e depois de um tempo recuando ligeiramente quando ele projetava a língua fundo demais na sua garganta, conseguiu fazê-lo beijá-la da maneira mais delicada que ela gostava, e logo estava montada no seu colo, e pôde sentir o pequeno volume de uma ereção contra a calça dele. Quando se apoiava nela, ele deixava escapar aqueles gemidos trêmulos e agudos que ela sinceramente considerava um pouco melodramáticos, até que repentinamente ele a tirou do seu colo e virou a chave na ignição.

“Beijando no carro feito uma adolescente,” ele disse, fingindo repulsa. E em seguida completou, “Eu achava que você estaria velha demais pra essas coisas agora que já tem vinte anos.”

Ela mostrou a língua para ele. “Pra onde você quer ir, então?”

“Pra sua casa?”

“Ahn, não vai rolar. Lembra da minha colega de quarto?”

“Ah, verdade. Você mora no dormitório da faculdade,” ele disse, como se isso fosse algo pelo que ela devesse se desculpar.

“Onde você mora?” ela questionou.

“Eu moro numa casa.”

“Eu posso… ir lá?”

“Pode.”

 

A casa ficava em uma vizinhança bonita e arborizada, não muito longe do campus, e tinha um pisca-pisca alegre no batente da porta. Antes de sair do carro, ele disse de um jeito sombrio, como se fosse um alerta, “Só pra você saber, eu tenho gatos.”

“Eu sei,” ela disse. “A gente falou sobre eles por mensagem, lembra?”

Na porta da frente ele se atrapalhou com as chaves por um tempo ridiculamente longo e xingou baixinho. Ela passou a mão nas costas dele para não perder o clima, mas aquilo pareceu o abalar mais ainda, então ela parou.

“Bom. Essa é a minha casa,” ele disse sem entusiasmo, abrindo a porta.

O cômodo em que eles estavam tinha uma luz fraca e muitos objetos, e enquanto seus olhos se ajustavam, todos eles foram tomando formas conhecidas. Ele tinha duas estantes grandes e cheias de livros, uma prateleira com discos de vinil, uma coleção de jogos de tabuleiro e muitos quadros – quer dizer, pôsteres que haviam sido emoldurados, ao invés de simplesmente colados na parede.

“Gostei,” ela disse genuinamente, e identificou a emoção que estava sentindo como alívio. Ela se tocou de que nunca tinha ido à casa de alguém para transar; como só havia saído com caras da sua idade, sempre existia algo de sorrateiro nessa coisa de evitar os companheiros de quarto. Era inédito, e um pouco assustador, estar tão claramente no território de outra pessoa, e o fato de que a casa de Robert indicava que eles tinham alguns interesses em comum, ainda que de forma bem genérica – arte, jogos, livros, música –, isso lhe pareceu um sinal reconfortante de que tinha acertado na escolha.

Enquanto pensava isso, ela percebeu que Robert a observava cuidadosamente, atentando para a impressão que a sala havia causado nela. Então, como se o medo ainda não estivesse pronto para deixá-la, passou por sua cabeça que essa talvez não fosse uma sala qualquer, mas sim uma armadilha para induzi-la a uma falsa crença de que Robert era uma pessoa normal, uma pessoa como ela, quando na realidade todos os outros cômodos da residência estavam vazios, ou apinhados de coisas horrorosas: defuntos ou gente sequestrada ou correntes. Mas em seguida ele começou a beijá-la, jogando a bolsa dela e os casacos deles no sofá e os levando para dentro do quarto, apalpando sua bunda e passando a mão nos seus seios com a mesma ávida falta de jeito daquele primeiro beijo.

O quarto não estava vazio, embora fosse mais vazio que a sala de estar; a cama dele não tinha cabeceira, era um modelo box. Uma garrafa de uísque estava em cima da cômoda, e ele tomou um gole, passou para ela, ajoelhou-se e abriu seu laptop, o que a deixou confusa; até entender que ele estava colocando uma música.

Margot sentou no colchão enquanto Robert tirava a camisa e desabotoava a calça, baixando-a até os tornozelos antes de perceber que ainda estava de sapato e se inclinar para desamarrá-los. Ao vê-lo assim, tão canhestramente curvado, com sua barriga grande e tenra e coberta de pelos, Margot recuou. Mas só de imaginar o que seria necessário para parar isso que ela tinha começado fazia com que ela se sentisse sufocada; exigiria muito tato e doçura, e ela não se julgava capaz de invocá-los agora. Ela não teve medo de que ele a forçasse a fazer algo contra sua vontade; mas insistir para que eles parassem agora, depois de tudo que ela havia feito para impulsionar a situação, faria com que ela parecesse mimada e caprichosa, como se ela tivesse pedido algo em um restaurante e então, com a chegada do prato, houvesse mudado de ideia e devolvido a comida para a cozinha.

Ela tentou transformar sua resistência em submissão tomando um gole de whisky, mas quando ele se lançou sobre ela com aqueles beijos imensos e desajeitados, a mão dele se movendo mecanicamente dos seus seios para sua virilha, como se estivesse fazendo um perverso sinal da cruz, ela começou a ter dificuldade para respirar e começou a sentir que talvez não conseguisse fazer isso no fim das contas.

Sair de baixo do peso dele e montar no seu colo ajudou, assim como fechar os olhos e se lembrar de quando ele a beijou na testa na loja de conveniência. Encorajada pela melhora, ela tirou a camisa. Robert se aproximou e puxou um seio do seu sutiã, de forma que ele ficou metade para dentro e metade para fora da taça, e estimulou seu mamilo com o indicador e o dedão. A sensação era desconfortável, então ela se inclinou para a frente, se colocando dentro da mão dele. Ele entendeu a dica e tentou desenganchar seu sutiã, sem sucesso, sua frustração evidente remetendo à batalha anterior com as chaves, até que finalmente disse, autoritariamente, “Tire essa coisa,” e ela obedeceu.

A maneira como ele a olhou nesse momento foi uma versão exagerada da expressão que ela já havia visto no rosto de todos os caras com quem ela tinha ficado nua, não que fossem tantos – seis no total, sete com Robert. Ele parecia atordoado e estúpido de prazer, como um bebê depois de mamar demais, e ela pensou que talvez isso fosse o que ela mais gostava no sexo – um homem revelado desse jeito. Robert demonstrava uma carência mais aberta do que todos os outros, apesar de ser mais velho, e de provavelmente ter visto mais peitos, mais corpos, do que os demais – mas talvez isso fizesse parte da coisa toda para ele, o fato de ele ser mais velho, e ela ser jovem.

Enquanto eles se beijavam, ela se sentiu levada por uma fantasia tão puramente egocêntrica que ela mal conseguia admitir para si mesma que a estava tendo. Olhe essa menina linda, ela o imaginou pensando. Ela é tão perfeita, seu corpo é tão perfeito, tudo nela é perfeito, ela tem apenas vinte anos de idade, sua pele é impecável, eu a quero tanto, eu a quero mais do que jamais quis qualquer outra, eu a quero tanto que poderia morrer.

Quanto mais imaginava a excitação dele, mais estimulada ficava, e logo eles estavam se movimentando, entrando em um ritmo, e ela colocou a mão dentro da sua cueca e pegou seu pênis e sentiu a gota perolada de umidade na ponta. Ele emitiu aquele som novamente, aquela lamentação aguda e feminina, e ela gostaria que houvesse alguma forma de pedir a ele que não fizesse aquilo, mas não conseguiu pensar em nenhuma. Então a mão dele estava dentro da sua calcinha e quando ele a sentiu molhada ele relaxou visivelmente. Ele a penetrou com os dedos um pouco, bem delicadamente, e ela mordeu o lábio e fez um showzinho para ele, mas logo ele a cutucou com força demais e ela recuou, e ele retirou sua mão. “Desculpa!” Ele disse.

E então ele perguntou, com urgência, “Espera. Você já fez isso antes?”

A noite estava sendo tão estranha e sem precedentes que seu primeiro impulso, de fato, foi responder que não, mas quando percebeu o que ele queria dizer, ela riu alto.

Ela não fez de propósito; ela sabia muito bem que, embora Robert pudesse se divertir ao ser o alvo de provocações leves e em tom de flerte, ele não era uma pessoa que aceitaria ser motivo de riso, nem remotamente. Mas ela não pôde evitar. Perder a virgindade tinha sido uma questão longa e arrastada precedida de meses de discussões intensas com seu namorado de dois anos, além de uma visita ao ginecologista e uma conversa extremamente embaraçosa mas incrivelmente significativa com sua mãe que, no fim da história, não só reservou uma pousada para Margot mas, depois do acontecimento, também lhe escreveu um cartão. A ideia de que, em vez de todo esse processo intricado e emocional, ela poderia ter assistido um filme pretensioso sobre o Holocausto, bebido três cervejas, e depois ter ido a uma casa aleatória para perder a virgindade com um cara que havia conhecido no cinema era tão engraçada que de repente ela não conseguia parar de rir, apesar de a risada ter um viés ligeiramente histérico.

“Desculpa,” Robert disse friamente. “Eu não sabia.”

Abruptamente, ela parou de rir.

“Não, foi… legal da sua parte checar,” ela disse. “Mas eu já transei antes. Desculpa por ter rido.”

“Você não precisa pedir desculpas,” ele disse, mas ela percebeu pelo rosto dele, assim como pelo fato de ele estar ficando flácido embaixo dela, que precisava.

“Desculpa,” ela disse de volta, automaticamente, e então, em um surto de inspiração, “Acho que eu estou nervosa, ou algo assim?”

Ele semicerrou os olhos, como se suspeitasse da alegação, mas ela pareceu aplacá-lo.

“Você não precisa ficar nervosa,” ele disse. “A gente vai devagar.”

Ahan, sei, ela pensou, e em seguida ele estava em cima dela novamente, beijando-a e pesando sobre ela, e Margot sabia que sua última chance de gostar desse encontro havia desaparecido, mas que o aguentaria até o fim. Quando Robert estava pelado, colocando a camisinha em um pinto que estava só meio visível por baixo da prateleira peluda que era sua barriga, ela sentiu uma onda de repulsa que poderia ter rompido seu sentimento de estase cativa, mas então ele enfiou o dedo dentro dela de novo, nada delicadamente dessa vez, e ela se imaginou vista de cima, nua e com as pernas abertas com o dedo desse cara velho e gordo dentro dela, e a repulsa se tornou um asco de si mesma e uma humilhação que parecia uma prima perversa da excitação.

Durante o sexo, ele a colocou em uma série de posições com uma eficiência ríspida, virando-a, empurrando-a, e ela se sentiu como uma boneca novamente, como na loja de conveniência, mas agora ela não era mais preciosa – ela era uma boneca feita de borracha, flexível e resiliente, um acessório no filme que passava na cabeça dele. Quando ela estava por cima, ele dava tapas na coxa dela e dizia, “Isso, isso, você gosta disso,” com uma entonação que não permitia dizer se era uma pergunta, uma observação, ou uma ordem, e quando ele a virou ele murmurou no seu ouvido, “Eu sempre quis foder uma garota com uns peitos tesão,” e ela teve que enfiar a cabeça no travesseiro para evitar rir novamente. No final, quando ele estava por cima dela no papai e mamãe, ele ficava perdendo a ereção, e toda vez que isso acontecia ele dizia, agressivamente, “Você deixa o meu pau tão duro,” como se mentir a respeito pudesse tornar aquilo realidade. Por fim, depois de um surto frenético como o de um coelho, ele estremeceu, gozou, e desmoronou sobre ela como uma árvore que cai, e, esmagada embaixo dele, ela pensou, com clareza, Essa é a pior decisão que eu já tomei na minha vida! E se admirou consigo mesma por um tempo, com o mistério dessa pessoa que havia acabado de fazer essa coisa bizarra e inexplicável.

Depois de um tempo, Robert se levantou e se apressou em direção ao banheiro oscilando com as pernas tortas, segurando a camisinha para evitar que caísse. Margou deitou na cama e fitou o teto, notando pela primeira vez que tinha adesivos nele, aquelas pequenas estrelas e luas que deveriam brilhar no escuro.

Robert voltou do banheiro e parou como uma silhueta à porta. “O que você quer fazer agora?” ele perguntou.

“Acho a gente deveria simplesmente se matar,” ela imaginou dizer, e depois imaginou que em algum lugar, lá fora no universo, existia um garoto que acharia esse momento tão terrível e ainda assim hilário quanto ela, e que um dia, num futuro distante, ela lhe contaria essa história. Ela diria, “Daí ele falou, ‘Você deixa o meu pau tão duro,’ ” e o garoto riria incontrolavelmente como se estivesse sofrendo e seguraria sua perna, dizendo, “Meu deus, pare, por favor, não, eu não aguento mais,” e os dois se abraçariam e não conseguiriam parar de rir – mas é claro que esse futuro não existia, porque esse garoto não existia, e nunca existiria.

Então em vez disso ela deu de ombros, e Robert disse, “A gente podia ver um filme,” e foi até o computador baixar alguma coisa; ela não prestou atenção no quê. Por algum motivo, ele escolheu um filme legendado, e ela ficava fechando os olhos, então não fazia ideia do que estava acontecendo. O tempo todo, ele estava acariciando seu cabelo e dando beijos suaves no seu ombro, como se tivesse esquecido que dez minutos atrás ele a havia jogado de um lado para o outro como se estivessem em um filme pornô e murmurado, “Eu sempre quis foder uma garota com uns peitos tesão” no seu ouvido.

Então, sem motivo algum, ele começou a falar sobre o que sentia por ela. Falou sobre como as férias tinham sido difíceis para ele, sem saber se ela não tinha algum namoradinho de colégio com quem pudesse se envolver. Durante aquelas duas semanas, aparentemente, todo um drama secreto havia se desenrolado na sua cabeça, uma história na qual ela havia deixado a faculdade comprometida com ele, com Robert, mas na casa dos pais seria atraída de volta por esse cara do ensino médio, que, para Robert, seria algum tipo de atleta bruto e bonitão, que não a merecia mas era ainda assim sedutor devido à sua posição no topo da hierarquia de Saline. “Eu fiquei preocupado que você pudesse, sei lá, fazer uma escolha ruim e daí as coisas entre nós ficaram diferentes quando você voltasse,” ele disse. “Mas eu deveria ter confiado em você.” Meu namorado de ensino médio é gay, Margot imaginou contar a ele. Nós tínhamos quase certeza disso na época, mas depois de um ano saindo com outras pessoas na faculdade ele certamente não tinha mais dúvidas. Na realidade, ele nem tem 100% de certeza de que se identifica como homem mais, nós conversamos muito durante as férias sobre como seria para ele se assumir publicamente como não-binário, então nada sexual iria acontecer, e você poderia ter me perguntado sobre isso se você estava preocupado; você poderia ter me perguntado sobre muitas coisas. Mas ela não disse nada disso; ela só ficou deitada quieta, emanando uma aura sombria e odiosa, até Robert finalmente parar de falar. “Você ainda está acordada?” ele perguntou, e ela disse que sim, e ele disse, “Está tudo bem?”

“Quanto anos você tem, exatamente?” ela perguntou.

“Trinta e quatro,” ele disse. “Isso é um problema?”

Ela pôde senti-lo no escuro vibrando de medo.

“Não,” ela disse. “Tudo bem.”

“Que bom,” ele disse. “Era algo que eu queria mencionar, mas eu não sabia como você iria reagir.” Ele rolou na cama e beijou sua testa, e ela se sentiu como uma lesma sobre a qual ele havia jogado sal, desintegrando debaixo daquele beijo.

Ela olhou para o relógio; era quase três da manhã. “Eu deveria ir pra casa, eu acho,” ela disse.

“Sério?” ele disse. “Mas eu achei que você ia dormir aqui. Eu faço uns ovos mexidos deliciosos!”

“Valeu,” ela disse, colocando a calça. “Mas eu não posso. A minha colega de quarto vai ficar preocupada. Então.”

“Hora que voltar pro dormitório,” ele disse, e da voz dele escorria sarcasmo.

“É,” ela disse. “Porque é onde eu moro.”

A volta parecia não ter fim. A neve tinha virado chuva. Eles não conversaram. Depois de um tempo, Robert sintonizou a rádio educativa. Margot lembrou de como, quando eles pegaram a rodovia para ir ao cinema, ela havia imaginado que Robert poderia matá-la, e pensou, Talvez ele me mate agora.

Ele não a matou. Ele a levou para o dormitório. “Eu me diverti bastante hoje,” ele disse, desafivelando o cinto de segurança.

“Obrigada,” ela disse. Ela segurou a bolsa nas mãos. “Eu também.”

“Eu estou tão feliz que a gente finalmente conseguiu marcar um encontro,” ele disse.

“Um encontro,” ela contou para o namorado imaginário. “Ele chamou aquilo de um encontro.” E os dois não conseguiam parar de rir.

“De nada,” ela disse. Colocou a mão na maçaneta. “Valeu pelo filme e tal.”

“Espera,” ele disse, e segurou seu braço. “Vem aqui.” Ele a puxou de volta, colocou seus braços ao redor dela, e empurrou sua língua pela garganta dela abaixo uma última vez. “Deus do céu, quando vai acabar?” ela perguntou ao namorado imaginário, mas o namorado imaginário não a respondeu.

“Boa noite,” ela disse, e então abriu a porta e escapou. No tempo de chegar ao quarto, já tinha recebido uma mensagem dele: sem palavras, apenas corações e emojis com olhos de coração e, por algum motivo, um golfinho.

 

Ela dormiu por doze horas, e quando acordou comeu waffles na cantina e fez uma maratona de seriados investigativos na Netflix e tentou vislumbrar a possibilidade otimista de que talvez ele desparecesse sem que ela tivesse que fazer nada, que de alguma forma ela pudesse mantê-lo longe com a força do pensamento. Quando a próxima mensagem dele chegou, logo depois do jantar, era uma piada inofensiva sobre alcaçuz, mas ela a deletou imediatamente, sufocada por uma aversão penetrante que lhe pareceu vastamente desproporcional a qualquer coisa que ele houvesse realmente feito. Ela disse a si mesma que devia a ele pelo menos uma mensagem de término, que ignorá-lo seria inapropriado, infantil, e cruel. E, se tentasse ignorá-lo, quem sabe quanto tempo demoraria para que ele entendesse? Talvez as mensagens continuariam chegando; talvez elas nunca parassem.

Ela começou um rascunho – Obrigada por ontem mas eu não quero me envolver em um relacionamento sério agora – mas ela ficava se esquivando e se desculpando, tentando fechar brechas que ela o imaginava encontrando (“Não tem problema, eu também não quero um relacionamento sério agora, tudo bem ser alguma coisa mais casual!”), de forma que a mensagem ficou cada vez mais longa e ainda mais impossível de se enviar. Enquanto isso, as mensagens dele continuavam chegando, nenhuma dizendo nada de mais, cada uma ficando mais séria que a anterior. Ela lembrou que ele havia falado muito sobre seus gatos, mas ela não tinha visto gato algum pela casa, e ela se perguntou se ele os tinha inventado.

Vez ou outra, no dia seguinte, ela sentia seu humor taciturno e perdido, como se estivesse sentindo falta de alguma coisa, e percebeu que era de Robert que sentia falta, não do Robert real mas do Robert que havia imaginado mandando todas aquelas mensagens durante as férias.

“Ei, parece que você está bem ocupada, né?” Robert finalmente escreveu, três dias depois de transarem, e ela sabia que essa era a oportunidade perfeita para mandar sua incompleta mensagem de término, mas em vez disso enviou, “Haha foi mal, é” e “Te respondo depois,” e então pensou, Por que eu fiz isso? E ela realmente não sabia.

“Diga pra ele que não está interessada de uma vez!” a companheira de quarto de Margot, Tamara, gritou em um tom frustrado depois de Margot passar uma hora na cama dela, hesitando sobre o que dizer a Robert.

“Eu tenho que falar mais do que isso. A gente transou,” disse Margot.

“Você tem que?” disse Tamara. “Quer dizer, você realmente tem?”

“Ele é um cara legal, mais ou menos,” Margot disse, e ela se perguntou o quão verdade era isso. Então, abruptamente, Tamara deu um bote, arrancando o telefone das mãos de Margot e segurando-o longe dela enquanto digitava rapidamente. Tamara jogou o telefone em cima da cama e Margot o agarrou, e lá estava, o que Tamara tinha escrito: “Oi nao to interessada em vc pare de me mandr msg.”

“Ah, meu deus,” disse Margot, tendo dificuldade para respirar.

“O quê?” Tamara disse atrevidamente. “Qual é o problema? É verdade.”

Mas ambas sabiam que havia um problema, e Margot sentiu um nó no estômago tão real que sentiu vontade de vomitar. Ela imaginou Robert pegando o celular, lendo aquela mensagem, tornando-se vidro, e se estilhaçando.

“Calma. Vamos beber alguma coisa,” Tamara disse, e elas foram a um bar e dividiram uma cerveja, com o telefone de Margot em cima da mesa o tempo todo, e embora elas estivessem tentando ignorá-lo, quando ele apitou com o barulho de uma nova mensagem elas gritaram e seguraram-se uma na outra.

“Eu não consigo – leia você,” Margot disse. Ela empurrou o celular na direção de Tamara. “Você fez isso. A culpa é sua.”

Mas a mensagem só dizia “OK, Margot, sinto muito de ouvir isso. Espero não ter feito nada pra te chatear. Você é uma menina doce e eu realmente gostei do tempo que a gente passou juntos. Por favor me avise se você mudar de ideia.”

Margot desabou na mesa, deitando a cabeça sobre as mãos. Ela sentiu como se uma sanguessuga, pesada e inchada com seu sangue, houvesse finalmente soltado da sua pele, deixando para trás um machucado. Mas por que ela deveria se sentir assim? Quem sabe ela estivesse sendo injusta com Robert, que na verdade não tinha feito nada de errado, exceto gostar dela, e ser ruim de cama, e talvez mentir a respeito dos gatos, mas provavelmente eles só estavam em outra parte da casa.

Mas então, um mês depois, ela o viu no bar – no bar dela, o do gueto estudantil, aonde, no encontro deles, ela havia sugerido ir. Ele estava sozinho, em uma mesa nos fundos, e ele não estava lendo ou olhando o celular; ele estava simplesmente sentado lá, em silêncio, debruçado sobre uma cerveja.

Ela agarrou o amigo com quem estava, um cara chamado Albert. “Meu deus, é ele,” ela sussurrou. “O cara do cinema!” Nessa altura do campeonato, Albert tinha ouvido uma versão da história, embora não exatamente a verdadeira; quase todos os amigos dela tinham. Albert se colocou na frente dela, deixando-a fora do campo de visão de Robert, enquanto eles retornaram apressadamente para a mesa onde seus amigos estavam. Quando Margot anunciou que Robert estava ali, todos expressaram espanto, e em seguida a cercaram e a levaram para fora do bar como se ela fosse o Presidente e eles o Serviço Secreto. Foi tudo tão exagerado que ela se perguntou se não estava agindo como uma menina malvada, mas, naquele momento, ela realmente se sentiu nauseada e assustada.

Deitada na cama com Tamara mais tarde, a luz do telefone como uma fogueira iluminando seus rostos, Margot lia as mensagens enquanto elas chegavam:

“Oi Margot, te vi no bar hoje à noite. Eu sei que você disse pra não te escrever mas eu só queria dizer que você estava muito bonita. Espero que você esteja bem!”

“Eu sei que eu nao deveria dizer isso mas eu sinto muita saudade de vc”

“Ei talvez eu não tenha o direito de perguntar mas eu só queria que você me dissesse o que eu fiz de erado”

“*errado”

“Eu achei que a gente tinha uma conexão de verdade você achou que não ou…”

“Talvez eu era velho demais pra vc ou talvez você gostava de outra pessoa”

“Aquele cara que estava com você hoje era o seu namorado”

“???”

“Ou ele eh so um cara pra quem voce esta dando”

“Desculpa”

“Quando vc riu quando eu perguntei se voce era virgem foi porque voce ja tinha dado pra um monte de cara”

“Voce esta dando pra ele agora”

“Esta”

“Esta”

“Esta”

“Me responda”

“Puta.” ♦

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Cat Person faz parte do livro You Know You Want This, com publicação prevista para o primeiro semestre de 2019. No Brasil, ele será publicado pela Companhia das Letras.

Sobre a autora
Ana Lopes

Assistidora compulsiva de séries e filmes, leitora, feminista, de boas, nerd, cozinheira de fim de semana, viajante, ateia e crazy cat lady. É professora de inglês e curte conversar sobre a vida, o universo e tudo mais.

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