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Eu escolho a mim mesma e assim jamais ficarei decepcionada

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Anne with an E

Eu comecei a ver “Anne With an E” por indicação de uma amiga (obrigada, Tamara), ela comentou no Facebook e decidi dar uma chance e ver o primeiro. Aí do primeiro fui pro segundo, pro terceiro e quando me dei conta tava terminando o sétimo – e último – episódio da primeira temporada.

 

vai dizer que não é linda? (Foto: Netflix)

 

A série se revelou pra mim exatamente o que a imagem me passou, é absurdamente forte e, ao mesmo tempo, de uma delicadeza bastante própria.

 

“Eu sou bem mais forte do que pareço”

 

Os temas abordados na série são diversos. O enredo é muito bom, a história e a curiosidade de entender aqueles personagens e seus destinos já prendem por si só.

Aí no meio disso tudo tem uma adolescente se tornando mulher, iniciando seu contato com o feminino e explodindo em questionamentos sobre os padrões nos quais precisa se enquadrar para se tornar essa mulher que as pessoas esperam.

Anne tem uma vontade gritante de trilhar seu próprio destino e se vê em constante conflito com aquilo que é previamente moldado para ela.

A série é baseada num livro de 1908 (Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery) o que torna seu texto ainda mais surpreendente.

 

 

Anne foi descrita por Moira Walley-Beckett, escritora responsável pela adaptação do livro para o roteiro da série, como uma “feminista acidental”, já o enredo me soa mais como feminista intencional mesmo.

A grande ideia feminista que corre a sociedade e o debate das “mães progressistas” é que as meninas devem ter o mesmo direito à educação que os meninos.

Mas as ideias que percorrem a série vão muito além disso.

A série mistura um ar leve com temas bastante complexos, é mais intensa do que parece, muito mais forte do que imaginamos.

 

“Às vezes é preciso deixar as pessoas amarem você”

 

Os episódios contam a história enquanto falam, entre outras tantas coisas, de igualdade, de acolhimento e de amor.

Fala de amor entre amigas, da descoberta do amor romântico, de amor materno e de cumplicidade.

Não pode ser classificada como uma história de amor no sentido habitual dessa classificação, mas não se pode negar que se trata de uma.

Foto: Netflix

 

“Grandes palavras são necessárias para expressar grandes ideias”

 

Anne é apaixonante, uma menina cheia de palavras, que ama livros e verbaliza absolutamente todas as suas ideias e emoções.

Usa sua imaginação absurdamente fértil para fugir eventualmente da realidade em que vive, embora seja surpreendentemente lúcida de seu contexto.

A prolixidade de Anne é encantadora, vi a primeira temporada completa duas vezes, a primeira com áudio original, em inglês, e a segunda dublada. Embora eu prefira a versão com áudio original, é preciso dar créditos para a dublagem da série, é sensacional, não prejudicou em nada o conteúdo e toda a beleza dos diálogos originais foi mantida.

 

“As obrigações podem ser uma prisão”

 

A série quebra o romantismo ao colocar com bastante objetividade a falta de perspectivas que uma realidade pode impor. É da consciência dessa realidade limitada na qual vive que vem a lucidez de Anne.

 

 

“É isso que você precisa decidir: viver uma vida sem arrependimentos.”

 

Anne With an E tem um elenco predominantemente feminino, as personagens são boas, fortes e diversas. Tem a personagem que quis casar e ser mãe, tem a que não quis, tem a que casou com outra mulher, tem a que adotou uma criança, tem a que fundou o grupo de discussões feministas e introduziu essa ideia naquela comunidade, tem a que acha isso tudo uma bobagem.

Tem de tudo, personagens bem delineadas, fortes, marcantes.

É baseada num livro escrito por uma mulher, produzida por Miranda de Pencier, com elenco predominantemente feminino, mas, acima de tudo, não é uma série para mulheres, daquelas tipicamente desenhadas para o público feminino.

Anne é uma história sobre a vida. Os livros, em verdade, formam uma série que conta a história de uma mulher dos 13 aos 40 anos, em português temos somente o primeiro livro (Anne de Green Gables), que conta essa história dos 13 aos 16.

(Por isso tô aqui falando tudo isso, a ideia é que todo mundo veja a série e ela faça o maior sucesso do mundo e esses livros sejam todos traduzidos e a série tenha temporadas de todos. Vamo gente, ajuda!)

Anne With an E vale seu tempo, é uma série necessária.

Bate uma sofrência quando a primeira temporada acaba, especialmente pela forma como acaba, mas “o luto é o preço que se paga pelo amor”, faz parte.

 

 

 

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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