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Todo machista é bem-humorado

Publicado por:
Paula Bernardelli
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“Quando você obriga seu cachorro a fazer sexo com você não é abuso, porque é seu cachorro, você só está pegando o que é seu.”
 “Criança gosta de apanhar, o que ela não gosta é quando incha a boca, o olho, mas de apanhar criança gosta. Não gosta? De quebrar umas costelas. Levar joelhada na boca. Criança gosta de apanhar. “

 

Achou engraçado? Não?

 

Proponho, então, um exercício: Vamos listar contextos em que essas frases se tornam engraçadas. Consegue? Não também?

 

Numa mesa de bar? Num palco? Num grupo de mensagens? Numa sala de aula pra dar aquela descontraída com os alunos? Nada? Nenhum?

 

Eu não consigo. E me parece que na nossa sociedade como é hoje é muito difícil pensar um contexto em que essas frases não seriam um problema, ao menos não um que não envolva uma alta dose de ironia ou uma crítica muito severa ao conteúdo.

 

Porque pra ter graça, graça mesmo, precisaríamos partir de uma premissa que – espero – não compartilhamos: a de que é engraçado que uma criança ou um animal seja abusado e/ou agredido.

 

Zoofilia e abuso infantil não tem graça. Em nenhum contexto.

 

É justamente por faltar essa premissa que é necessária para o humor da coisa, que a redação original dessas frases não é essa que coloquei.

 

As frases falam de mulheres.

 

Uma delas – que está gravada – dita por um professor de um cursinho jurídico, para descontrair em sala de aula, outra contada em um show de stand up – em que eu estava na plateia – por um comediante até que bem famoso.

 

Causaram riso porque a premissa da piada é compreendida por parte dos ouvintes. A piada não tem sentido sem isso. A piada precisa dessa compreensão para fazer sentido e, ainda, a piada também ajuda a naturalizar e reforçar a validade da premissa. Alex Castro falou bem disso em sua Carta Aberta aos humoristas do Brasil. 

 

E aí, se tem uma coisa cuja graça tem sido defendida com unhas e dentes, é a graça que o machismo tem. Todo machista é muito bem-humorado, todo machista está sempre brincando, todo machista fica por aí contando piadas. E manter o direito de naturalizar premissas de inferiorização da mulher e violência de gênero parece ser realmente uma causa que ocupa muito espaço na pauta desses bem-humorados machistas que nos cercam.

 

Esses que batem no peito dizendo que são politicamente incorretos sim, obrigado. Porque “no tempo deles” todo mundo falava essas coisas e tá todo mundo aí, vivo e forte. Gritam que falta às feministas o tal do senso do humor, sobra exagero, reclamam do “patrulhamento do politicamente correto”, mas, acima de tudo, precisam sempre nos lembrar que os machistas não são eles:

 

 “Eu não sou machista, abomino toda forma de violência contra mulher, tenho mulher, tenho filhas, tenho amigas, respeito todas, era só uma piada, foquem sua revolta contra os machistas de verdade, aqueles que batem em mulheres, não tirem minha piada de contexto para me tornar um monstro, eu estava brincando, era só uma piada”.

 

Eu gosto muito de comédia. Sou uma defensora do formato stand-up comedy (que juro que é bom, só tem muita gente ruim fazendo) e passo boa parte do meu tempo livre buscando comediantes que não conheço entre os especiais da Netflix, obviamente isso não me torna nem próxima de uma pessoa que entende da coisa, mas ao menos me dá uma lista de referências.

 

Mike Birbiglia está entre meus favoritos.  No seu especial Thank God For Jokes ele fala sobre piadas, sobre o questionamento de “é possível que uma piada não ofenda alguém?”, “provavelmente não”, ele conclui. Uma piada, em regra, sempre tem um alvo, e é pouco provável que, ainda que o alvo não se ofenda na hora, o teor da piada consiga ser totalmente inofensivo.

 

É por isso, Birbiglia fala, que “você não pode contar piadas na vida o tempo todo”. Isso é bastante claro pra todo mundo, isso é bastante óbvio para quem vive em sociedade.

 

Você não pode, por exemplo, entrar num avião e contar uma piada sobre bombas ou atentados terroristas. Faz parte do protocolo social da aviação que você vai ser retirado do seu voo, ainda que sob protestos de “era apenas uma brincadeira”. Aquela brincadeira não é aceitável naquele ambiente, e não é porque falta senso de humor, é porque há um contexto social que torna aquela piada inadequada e ofensiva, há um contexto social que não permite a banalização do risco de uma bomba ou de um atentado terrorista naquele ambiente e uma piada sobre o tema é uma banalização.

 

Pouco importa, nesse caso, o seu contexto pessoal, sua família ter pavor a bombas, você, já ter trabalhado no esquadrão anti-bombas, você ter uma cruzada pessoal anti terrorismo. Seu contexto pessoal é irrelevante em alguns momentos porque você vive em sociedade e precisa considerar o contexto social antes de agir. Simples. Claro. Tão óbvio que chega a ser triste ter que falar isso ainda.

 

No mesmo especial Mike Birbiglia comenta que uma das razões para que não se possa fazer piadas em quase nenhum momento da vida, é que “piadas foram arruinadas por pessoas que não são boas contando piadas”,  prossegue com o exemplo hipotético de que “em uma empresa existia um homem que contava piadas ótimas, até que um dia ele olhou para Sandra do Administrativo e disse ‘belas tetas, Sandra’, Sandra ficou ofendida e esse homem respondeu ‘é só uma piada”, e o chefe meio confuso teve que dizer ‘sem mais piadas por aqui’” (talvez eu tenha misturado os nomes, mas a essência da história é essa). Aí vem o ponto: Uma piada nunca deve terminar com “é só uma piada” (“A joke should never end with ‘I’m joking.’”). Se ao final é necessário acrescentar essa informação é porque possivelmente não era uma piada.

 

O “eu estava brincando” se tornou o super-trunfo dos defensores máximos da liberdade de expressão irresponsável, como se “ser uma brincadeira” desse autorização para falar as bobagens que quiser sem poder ser responsabilizado por isso, sem poder nem mesmo ser criticado por isso. Querendo que todos entendam “o seu contexto” para falar tudo, e que o contexto os livre de qualquer reação negativa ao que disseram.

 

Acontece que não é assim.

 

E se é pra falar de contexto eu sugiro que comecem a observar o contexto real que vai além das suas paredes. Observar que estamos em um país com índices alarmantes de violência de gênero. Um dos países mais perigosos do mundo para mulheres. E que a insegurança para andar por aí sendo uma mulher é um problema global.

 

Isso não é opinião, é estatística.

 

Jen Kirkman, também entre minhas favoritas, fala sobre esse contexto no seu especial Just Keep Livin’?, fala sobre o quanto é repulsiva a postura masculina de cantar mulheres na rua, colocando entre tantas outras afirmações pertinentes que “elogios e assassinatos podem começar exatamente com a mesma abordagem, a gente não tem como identificar”.

 

Também fala do terror que é andar na rua sabendo que corremos risco de assédio – físico ou verbal – simplesmente por carregar algo que não temos a opção de deixar em casa: o nosso corpo.

 

Esse contexto de violência e eterna vigilância feminina é fruto do “seu tempo”. É fruto de todos os tempos que precederam o que vivemos agora.

 

É importante ter isso em mente antes de sair defendendo seu direito de falar idiotices com base no argumento de “no meu tempo não tinha nada disso de politicamente correto”.

 

Bo Burnham, no especial Make Happy, trata dessa dificuldade que alguns encontram de superar “seu tempo”, deve ser difícil mesmo:

 

 

 

É preciso que entendam de uma vez por todas que “seu tempo” produziu o nosso tempo, e as coisas não vão bem. Queremos construir tempos diferentes.

 

É por isso que não é admissível a manutenção de uma sociedade em que a ideia de inferiorização da mulher seja banalizada, simplificada e repetida com graça por aí.

 

Respeito amplamente o direito à liberdade de expressão, mas ele vem com responsabilidades. Que falem o que quiserem, mas sejam responsabilizados pelo que vier. Ninguém com mais de 12 anos tem direito de acreditar em liberdade sem responsabilização numa sociedade democrática.

 

E é importante ter em mente também que tem um grupo de pessoas aqui dando duro pra construir um mundo onde a violência contra a mulher seja apenas horrível, nunca engraçada, onde a discriminação de gênero nos cause repulsa e não riso, e qualquer discurso que tente nos afastar desse objetivo será sim repelido.

 

E você, colega machista bem-humorado, pode aproveitar esses momentos para refletir sobre sua responsabilidade pelo mundo que seu tempo construiu e definir qual mundo que agora quer consolidar, ou aceitar que em alguns grupos você não cabe mais. Tal qual a piada sobre bombas num avião, não se trata de censura, mas de restringir os espaços onde é possível banalizar o horror, de perceber o contexto social acima do seu individual e de lidar com uma gente que bem recentemente começou a ter voz e não vai se calar tão fácil.

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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