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O funk da periferia: o feminismo das mana e o feminismo bwana

Publicado por:
Roberta Gresta
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Era certo que o clip “Vai, Malandra”, da Anitta, ia gerar problematização. Gerou a problematização da celulite, a do biquíni de fita isolante, a do diretor do clipe, até a que discute se o correto não é “vá, malandra”. Gerou a metaproblematização – a problematização sobre Anitta ser digna de problematização.

Eu vinha acompanhando quieta. Não porque sou contra problematizar esses pontos (ok, sou contra problematizar o título de uma música popular com base em regras de gramática e acho mais do mesmo jeito de desvalorizar mulheres esse desdém com uma cantora brasileira que sabe fazer de seus clipes excelente peça de marketing  – como sabia Michael Jackson, por exemplo – e que não à toa entrou na lista da Billboard de 50 artistas mais influentes nas redes sociais em 2017, no mundo).

O que rolou é que eu estava confortável como espectadora de discussões em que eu enxergo mais complementariedade que oposição entre os argumentos. Por exemplo, me parece possível achar significativo Anitta mostrar propositalmente sua celulite no clipe e ainda assim achar que isso é muito pouco perto do problema da gordofobia.

Mas aí surgiu uma problematização que me sacudiu, por cheirar a close errado. Essa problematização diz algo como “devemos nos preocupar porque Anitta está vendendo uma cara de periferia pros gringos como lugar de mulher hipersexualizada, e isso é tudo menos empoderador”.

Eu acho curioso isso, uma certa ala do feminismo que, diante da questão da sexualidade feminina, consegue ser tão moralista quanto qualquer machista pronto pra ditar regras sobre como uma mulher deve lidar com seu corpo. São pessoas que se assustam com uma mulher se colocar em cena como protagonista do seu desejo sexual e tomar atitudes que insinuem sexo. Como se, com isso, essas mulheres estivessem renunciando à dignidade, ao direito de serem levadas a sério e, de quebra, pondo a perder toda a luta feminista de décadas.

Olhando mais de perto, essa ala do feminismo parece cheinha de mulheres não periféricas, preocupadas com o retrocesso que essa (hiper?)sexualização pode representar na árdua luta por igualdade de direitos. Há uma irritação não confessada – e mal-disfarçada na suposta preocupação de que as mulheres do biquini de fita isolante fiquem mais vulneráveis à objetificação – por achar que as cenas de Anitta se divertindo em bater bumbum e chamando a atenção de homens pro corpo dela ameaça o legado das filósofas e sociólogas que invocamos pra dar credibilidade às nossas reivindicações.

Nossas, aqui, querendo dizer das mulheres não periféricas, porque é nesse grupo que me incluo.

Sendo eu uma mulher não periférica, posso dizer rasgado: é prepotente e preconceituoso que mulheres como eu menosprezem a relevância da sexualidade ostensiva para a construção da identidade (de parte) das mulheres periféricas. O que está oculto nisso é uma visão intelectualizada do feminismo que transforma em tabu aquilo que, incompreendido, lhe parece inferior, vulgarizado, selvagem até.

Sem meias palavras: é um erro lidar com isso dessa forma. Caímos no equívoco, como grupo privilegiado, de tomar nossos próprios códigos com um padrão de normalidade, sem perceber que a forma mais velada como lidamos com a sexualidade é também um condicionamento resultante do nosso meio. E o mais grave, nesse caso, é que dentre esses códigos que consciente ou inconscientemente se quer impor à favela está uma premissa que a cultura do estupro dita: é a conduta da mulher que dá a medida do respeito que ela merece dos homens.

Sem perceber isso, desqualificamos o comportamento de mulheres que tratam o corpo de forma diferente da nossa, como se da gramática delas emanasse uma vergonha pra nós e um “aí você tá pedindo” pra elas. É como se disséssemos “olha, querida, viemos te mostrar como é possível se juntar ao movimento, não ser essa criatura sexualizada, se empoderar; mas pra isso você precisa abandonar essa baixaria do funk, pois caso contrário os homens só irão te ver como um pedaço de carne”.

Rá. Nós, que devíamos é estar pensando se nos serve o padrão de (não) sexualidade no qual fomos educadas, perdemos tempo escandalizadas com cenas nas quais mulheres que vivem numa realidade que desconhecemos sacolejam o corpo.

E por que mulheres não periféricas agem assim? A maioria provavelmente não vai acessar a raiva que sente ao ver aquela rebolação desenfreada avacalhando os planos de empoderamento assexuado que traçou pra si. Não vai admitir que o funk ameaça suas certezas. Vai é se enxergar como a salvadora daquelas mulheres, mulheres às quais talvez se refira como mana.

Mana? Que nada! Estão mais para bwana*  as colonizadoras que querem domínio mas que conquistam isso com a imagem benevolente de resgatar a alma das selvagens.

Não estou dizendo, claro, que mulheres não periféricas devem ficar alheias ao que se passa com mulheres nas periferias. Podemos e devemos nos mobilizar contra a violência que elas sofrem. Mas só dá pra fazer isso a partir de um olhar de respeito a um modo de vida que não é nosso.

Infelizmente, não é isso que fazemos quando interpretamos um funk protagonizado por uma mulher da periferia como um abalo a uma forma de feminismo que consideramos “superior” por nos parecer mais “sofisticada” ou “civilizada”. Se são esses adjetivos que cortam a nossa mente, já não lutamos por liberdade para todas as mulheres; lutamos pela imposição a todas de nosso modo de vida. Como qualquer colonizador.

E aí é que está a maior vergonha, pra nós, não periféricas, ao ficarmos tão preocupadas com “comé que o gringo vai enxergar o Brasil” e colocarmos esse feminismo bwana, de colonizadoras boazinhas, em ação. Como disse a Paula Bernardelli, num papo nosso da madrugada: “Ouvimos muito pouco as mulheres periféricas, ignoramos a maior parte da violência que elas acusam, especialmente as violência em que nós somos as agressoras. E, aí, quando vemos a vida dessas mulheres na nossa tela, a vida delas virando trending topic – e não a nossa vida, de mulheres tão “estudadas”, tão “evoluídas”, a reação é reduzir aquelas vidas.”

É importante dizer: Anitta não é uma mulher que está “vendendo uma imagem de periferia”; Anitta é uma mulher da periferia. Pode não ser da favela. Mas, então, que tal deixar a crítica sobre a forma como ela aborda a mulher da favela para quem vive essa realidade?

Lembrei aqui da Mallu Magalhães e seu clip “Você não presta”, com a participação de dançarinos negros gerando polêmica. Naquele caso, quem encabeçou a crítica e o debate foram pessoas negras, que consideraram que o clipe tratou os negros de maneira estereotipada e ofensiva. Mallu Magalhães foi explicar e a emenda saiu pior que o soneto, e as pessoas negras problematizaram cada vírgula dessa explicação. Por exemplo, a maravilhosa Antonilde Rosa, também cantora, escreveu uma resposta aberta contestando ponto a ponto a explicação da Mallu Magalhães sobre a produção. Uma resposta que somente uma mulher negra poderia dar. Eu li cada linha, atenta, muito atenta, para refletir.

Então, se o problema é “como o clipe retrata a sexualidade das mulheres da favela”, um pouquinho de humildade a quem é forasteira vai muito bem. Vejamos o que dizem as mulheres representadas no clipe, se há mesmo treta e qual o desenho e o tamanho dessa treta. Porque, numa boa, Anitta não deve reverência alguma à pauta feminista intelectualizada avessa a bumbuns salientes.

Uma última coisa a dizer é que não estou aqui querendo reforçar estereótipo nenhum. O ponto não é rotular a “mulher da favela” como funkeira. É claro que a periferia não tem só funk. Mas é inegável que o funk é uma expressão forte e revolucionária da periferia, uma expressão que foi incorporada como linguagem libertária por muitas mulheres. O ponto então é dizer que a quem não é do funk da periferia cabe apenas respeitar isso.

O feminismo não pertence às mulheres não periféricas pra que nós possamos torcer o nariz e revirar os olhos dizendo “afe, lá vem mais uma música falando de bunda”.

O feminismo é de todas, ou não será de nenhuma.

 


*Bwana é um termo de origem Swahili que foi utilizada no século XIX, na África, como pronome de tratamento dos senhores de escravos. Seu sentido híbrido de “pai” e “proprietário” nos indica a servilidade dócil que os senhores esperavam em troca do bem que consideravam fazer aos escravos: civilizar sua vida até então selvagem.

Sobre a autora
Roberta Gresta

Cresceu ouvindo que era uma menina "cheia de opinião", teimosa, atrevida e inconformada. Um dia, entendeu que esses eram seus melhores atributos pra ser uma mulher capaz de fincar pé nesse mundo de homens. Por isso, escreve.

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