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Querida amiga magra, a gente precisa conversar.

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Eu tenho algumas histórias para te contar, todas elas falam da mesma coisa e eu sei que você possivelmente vai ler todas pensando “mas o que eu tenho a ver com isso?”. Eu sei que você vai ler todas pensando que você não tem como resolver os problemas individuais das pessoas e nem todos os problemas do mundo. Eu sei que você vai ler todas pensando em como você também sofre com pressões estéticas. Eu sei.

 

Eu sei também que você talvez ache que isso aqui é um ataque, mas já deixo aqui o que eu eu usaria para me despedir: Com amor, Paula.

É com amor, é pra gente conversar, eu vou falar o que você – e eu, e as outras, e as não tão magras, e as gordas, e as não tão gordas, e todo mundo – tem a ver com isso.

 

Me dê essa chance, a gente precisa conversar.

 

Eu queria, primeiro, te contar a história da minha avó materna.

 

Minha vó tem 82 anos e é uma das mulheres mais lindas que conheço. Ela tem olhos verdes que brilham numa intensidade que é difícil de acreditar, tem uma elasticidade que eu não tinha nem no auge da minha carreira de atleta e uma disposição que eu pretendo conquistar algum dia.

Quando nos vemos ela me olha com amor e diz “como você está linda” ao que eu sempre respondo “é que puxei minha vó”. Ela ri e diz “quem me dera ser assim”.

 

Mas ela é. Ela foi. E eu serei.

 

A verdade é que o “eu puxei a minha vó” é mais que uma piadinha simpática, é verdade mesmo. Durante toda minha infância eu era muito parecida com meu pai, mas agora quanto mais os anos passam mais parecida com minha avó eu fico.

 

E reconhecer que sou parecida com minha avó, em grande parte, significa aceitar minha estrutura corporal de descendentes de alemães e ver nela que eu nunca serei magra. Veja, não sou gorda, como minha vó não é, mas nós duas estamos naquele corpo que ninguém olha e diz que estamos ótimas.

 

Ninguém olha o corpo da minha avó e diz que ela envelheceu bem, embora ela inegavelmente tenha envelhecido e inegavelmente esteja muito bem. Porque é isso, envelhecer bem é envelhecer magra, torneada, padrão. Estar bem é estar magra, torneada e padrão.

 

E por ter sido sempre lembrada que não estava bem, minha vó tem dificuldade de se reconhecer como uma mulher bonita. Ela me reconhece bonita, mas não se vê da mesma forma, embora sejamos inegavelmente muito parecidas.

 

Eu cresci vendo minha avó tentando emagrecer. Ela já tomou remédios que colocavam em risco sua saúde e que, obviamente, não resolvem nada a longo prazo. Ela sempre está falando de dieta – embora tenha dificuldade de manter, como eu tenho, como qualquer pessoa tem, já que dietas restritivas são comprovadamente nocivas e insustentáveis – ela sempre falou do próprio corpo como algo inadequado.

 

Minha vó trabalhou a vida toda, foi costureira – ela fazia ternos, vocês tem ideia do nível de habilidade que isso exige? – criou 3 filhos, teve um casamento incrível com um homem sensacional, fez e manteve amigas fiéis, viaja, se diverte, é independente, bem humorada, mas até hoje se sente inadequada no corpo que vive.

 

Pode isso? Não deveria poder.

 

Eu queria agora te contar a história de uma amiga e sua prima de 7 anos.

 

Essa minha amiga recebeu a prima para passar uns dias em sua casa. Sabe uma daquelas crianças que tem a estrutura muito magra? É uma dessas crianças.

 

Na hora de comer qualquer coisa o discurso da menina era feito de variáveis da afirmação “precisamos comer pouco para não engordar.”

 

Minha amiga, consciente como poucas, respondia: Não, precisa comer bem e bastante para você crescer forte e inteligente.

 

A criança, de 7 anos, levantava a blusa e batia em sua barriga, “tem que cuidar pra não ficar gorda e feia”.

 

Eu poderia junto com essa história te contar de manifestações de mais tantas meninas, das que já presenciei, das que vi em vídeos que rolam na internet (colocadas insanamente como algo engraçado), e da minha própria história – que aos 12 anos fui ensinada por uma tia que quando me desse fome de tarde era só tomar uns goles d’água que a fome seria enganada, já que eu tinha tendência a ser gordinha, né? (não, não é – eu tinha feito um parêntesis aqui pra contar pra vocês meu peso e minha altura na época e comprovar o quanto eu era magra aos 12 anos, mas eu tirei sabe por quê? Porque não se diz pra uma pessoa enganar a fome com água, independente do corpo que ela tenha).

 

Eu poderia falar de muita coisa. Mas acho que o principal já está claro: a obsessão pela magreza feminina surge quase que ao mesmo tempo que o reconhecimento do feminino.

 

Quando uma menina se identifica como mulher na nossa sociedade, ela automaticamente se identifica com a necessidade de permanecer ou se tornar magra.

 

Eu não tenho consciência de um só dia da minha vida em que eu não tenha me identificado como uma pessoa que precisava estar constantemente atenta ao próprio corpo e sua forma naturalmente inadequada. Eu já fiz uma dieta insana na qual emagreci absurdos. Meu cabelo caiu aos montes e eu passava mal na academia, mas era o preço a se pagar. Todos diziam que eu estava ótima, e todos me lembravam o tempo todo que eu não podia falhar e voltar a engordar. Pois, falhei, falhamos todos os dias porque a missão é quase impossível.

 

Eu queria, por fim, te contar como o discurso é poderoso, como nós temos responsabilidade sobre isso tudo e como podemos revolucionar esses cenários.

 

A pressão estética que acomete todas as mulheres é cultural, é forte, é destrutiva. Escapar disso não é fácil porque as redes nos prendem por todos os lados.

 

A magreza é mais que um ideal e um padrão, a magreza virou um mercado.

 

O mercado estético não vende saúde, está longe de fazer isso. Especialmente porque se mercado estético vendesse saúde eles venderiam também saúde mental, mas reforçar nossas obsessões, inseguranças e desesperos, reforçar que nunca somos boas o suficiente, que sempre tem algo a ser arrumado, parece ser um negócio bem mais lucrativo. O mercado estético vende magreza e falsa juventude, nada além.

 

Vender técnicas infalíveis que sempre falham,  manter o discurso de que estar bem é estar magra e envelhecer bem é envelhecer magra – e sem parecer que envelheceu – parece ser realmente muito interessante pra quem lucra com isso.

 

É interessante o suficiente para que surjam matérias do tipo “após perder o pai e o emprego, atriz [por causa da depressão] emagrece 15 kg e fica gata” (a informação da depressão é omitida na manchete, mas achei importante você saber. Eu não vou linkar, quem quiser dar acesso para um portal que escreve esse tipo de estupidez que busque e faça isso por sua conta).

 

“Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”

Naomi Wolf

 

Palavras importam. O discurso importa. A linguagem é um elemento automaticamente absorvido da cultura. É, possivelmente, o traço cultural mais forte de uma sociedade. E em razão disso, é talvez o elemento mais potente para mudança de uma cultura.

 

Não conhecemos outra forma de interação que não a verbalização.

 

É por isso que o movimento negro repudia o uso de algumas palavras culturalmente utilizadas em nosso vocabulário, é por isso que chamar a Presidenta de Presidenta é simbólico, é por isso que liberdade de expressão é elemento tão caro às democracias, é por isso que em ditaduras a censura vem no discurso, é por isso, inclusive, que esse blog existe. Porque o discurso importa.

 

E se o discurso molda uma cultura a gente precisa pensar sobre ele, precisamos transformá-lo, precisamos torná-lo menos refém e mais ativo.

 

Todas as mulheres percebem a importância disso, as feministas lutam pela adoção de um discurso mais igualitário, sem expressões, palavras ou textos que passem a ideia de inferioridade feminina, em todos os ambientes. Pedimos que os homens vigiem suas palavras, sim, que pensem antes de proferir qualquer coisa.  Entendemos claramente que isso não é censura, não é excesso de sensibilidade, isso é luta, é tomada de consciência, é o caminho necessário para construção de uma sociedade melhor para nossas meninas.

 

Agora entra exatamente o que nós temos a ver com essas histórias que contei e com esse mundo que queremos construir. Precisamos também estar atentas ao nosso discurso.

 

Vale pra tudo. As mulheres também precisam controlar sua linguagem machista, mas é fato que os homens – que são privilegiados por essa estrutura – precisam do dobro de vigilância.

 

As mulheres fora do padrão vendido como ideal também precisam controlar seus discursos que alimentam essa cultura estética insana, mas você, amiga magra, é a privilegiada por essa estrutura, e precisa cuidar com o dobro de cautela também.

 

Não importa também se você não se acha assim tão magra, se você nem está tão dentro do padrão assim (spoiler: ninguém está), se você também sofre pressão estética por qualquer outra coisa (e nesse caso, conta pra gente, vamos nos abraçar e resolver juntas isso aí também), não é uma competição de quem sofre mais, é um chamado para que a gente pare de causar sofrimento (em nós mesmas e nas que nos cercam).

 

A minha vó não criou sozinha sua ideia de inadequação. Minha vó cresceu ouvindo isso, diretamente ou por comparação – se a outra, que está magra, é ótima e está bem, é porque ela está mal, a matemática das palavras é simples.

 

A gente cresce ouvindo de todos os lugares que estar magra é o padrão de estar bem, que é saudável, que é mais bonito. A gente cresce ouvindo amigas magras surtando por engordarem dois ou três quilos ou rezando para permanecerem magras para sempre porque deusolivre engordar, a gente cresce achando que essas conversas são naturais.

 

Ninguém tá falando que as pessoas não podem querer mudar seu corpo, emagrecer, engordar, mudar, operar, colocar o que for. A questão não é essa. A questão é como falamos dos nossos corpos e dos corpos alheios, a questão é como reproduzimos essa lógica da magreza como única forma boa possível.

 

Deixo um exemplo, mas eu poderia colocar milhares.

 

Uma vez um grupo de amigas saiu pra uma balada onde dançamos muito. Encontramos lá uma outra mulher, amiga de uma das mulheres do nosso grupo. No dia seguinte reencontramos essa mulher que fez questão de pontuar: adoro aquele lugar, a gente dança muito, gasta calorias, aí pode beber sem medo de engordar.

 

Medo, gente.

 

De engordar.

 

Essa coisa terrível e assombrosa que é ser gorda estava descartada pelas calorias gastas na dança. Percebe?

 

Dá pra perceber que a criança de 7 anos também não aprendeu isso sozinha. Eu não criei isso sozinha. Você também não. É muito claro que isso vai muito além de questões individuais e de trabalhos de autoajuda e exercícios de auto aceitação.

 

Se estamos falando de uma ideia construída coletivamente e que é absorvida por nós como uma condição quase indissociável do feminino, nós só iremos conseguir destruir isso também coletivamente. Não dá mais pra aceitar a reprodução desse padrão.

 

É um convite, não uma declaração de guerra.

A revolução dos corpos deve começar pela língua.

Precisamos estar lado a lado, precisamos mudar esse discurso. Vamos juntas?

 

 

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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