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Aborto, vida e dignidade

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Querido amigo pró-vida / homem de bem / humano direito, o que você precisa entender de uma vez por todas é que a vida não é sobre sua opinião.

Sinceramente, sua opinião sobre abortar ser certo ou errado não importa nada, nadinha mesmo.

E eu acho que não importa por um motivo muito simples: isso não é sobre você que um dia já teve três meses, nem sobre sua vizinha que se arrependeu do aborto, sua amiga que perdeu o filho e faria tudo para tê-lo novamente, o amigo do seu primo que o filho nasceu com má formação por um aborto mal feito. Não quero parecer indiferente à dor dessas pessoas, mas o problema é que todos esses casos trágicos aconteceram justamente num cenário em que o aborto é criminalizado, o que nos mostra, acima de tudo, que a criminalização não resolve nada disso.

Veja, isso também não é sobre quem quer ter filhos e isso, muito menos, é sobre sua religião ou sua noção de pecado. Isso não é sobre crianças inocentes ou sobre o conceito de alma, não é nem mesmo sobre o início da vida.

A discussão do aborto é sobre fatos, estatísticas, uma realidade cruel e a busca – real – da proteção da vida digna.

Os fatos:

Mulheres abortam, voluntariamente ou não, em decisões bem pensadas ou por impulso. Mulheres abortam. Todos os dias. No mundo todo.

As estatísticas:

Um estudo de 2013 mostrou que cerca de um milhão de abortos são realizados por ano no Brasil. O número exato é impossível saber, estima-se que a maior parte dos casos não são registrados.

O aborto é a quinta maior causa de mortes de mulheres no Brasil.

Em matéria divulgada pelo O Globo em 2014, foi feita uma estimativa de que em 2013 o SUS desembolsou, no mínimo, 142 milhões para atender situações decorrentes de abortos induzidos – a maior parte deles feitos de forma clandestina.

A realidade cruel:

O aborto é um problema de saúde pública.

Reduzir as mortes decorrentes do procedimento e os gastos públicos em consequência dessa prática é um interesse social e uma questão de humanidade.

Mulheres pobres, negras e periféricas são as que mais morrem nesse processo. Aos montes, todos os dias. Por uma série de fatores bastante óbvios e exaustivamente informados elas são as que mais morrem. O aborto para mulheres ricas nunca foi efetivamente proibido. Elas saem do país, pagam clinicas clandestinas caríssimas, tem acesso à diversos métodos e possibilidades, dinheiro compra acesso.

Criminalizar o aborto não tem resolvido. Ponto. Fim. Não tem como argumentar contra isso simplesmente porque basta olhar a realidade e as estatísticas e perceber que criminalizar não tem resolvido. Nada. Falar que resolve é inocência, má-fé ou falta de informação.
A criminalização do aborto tem matado muita gente.

O que se busca:

A criminalização de uma conduta não é um fim em si mesmo. Não queremos que algo seja crime só porque achamos muito feio fazer aquilo. Quando criminalizamos algo estamos dizendo, acima de tudo, que não queremos que aquilo aconteça na nossa sociedade, que é uma postura que queremos combater.

Me parece que os pró-vida e nós, os malignos “pró-aborto” (vocês sabem que não é isso né? Vocês falam isso só pra irritar…), temos um grande ponto de concordância: queremos reduzir o número de abortos e o número de mortes de pessoas. Como fazer?

Primeiro: analisar a questão para além do seu gracioso umbigo.

Isso já resolveria boa parte dos argumentos sem sentido que rolam por aí. Inclusive um dos que mais irritam que é o “mas e o pai?”.

Vem cá, vamos conversar.

O Brasil hoje tem mais de 5,5 milhões de crianças sem o pai no registro de nascimento.

A imensa maioria das gestações indesejadas são indesejadas para ambas as partes. A diferença é que o pai simplesmente vira as costas e vai embora. Não, isso não é “aborto masculino”, não é a mesma coisa por uma série de motivos, alguns óbvios e outros nem tanto, mas que vamos deixar pra outro momento.

O que eu quero dizer com isso é que: às favas com essa discussão de se os pais devem ou não autorizar o aborto. Os pais nas gestações indesejadas não estão nem aí para seus filhos indesejados.

Se uma mulher quer conversar com seu parceiro antes de realizar um aborto isso é uma escolha dela, de acordo com a dinâmica de relacionamento do casal. Obrigar legalmente uma mulher a ter o aval do parceiro para isso seria mais uma manifestação da falta de sensibilidade e de percepção da realidade que só os homens de bem são capazes de ter.

Olhar a questão um tiquinho além também implica em parar com o argumento barato de “melhor morrer uma mulher criminosa que uma criança inocente”, porque, deixa eu te contar, quando a “mulher criminosa” morre, a “criança inocente” que você defende morre junto. Percebe, Ivair?

Segundo: buscar meios efetivos de lidar com o problema.

Um fato interessante: os países que descriminalizaram o aborto tiveram uma redução significativa no número de abortos realizados. Uma mulher que tem a segurança de não estar cometendo um crime e a possibilidade de acompanhamento especializado na tomada dessa decisão, tende a fazer isso de forma mais consciente. Isso diminuí também os casos trágicos dos arrependimentos pós-aborto e abortos que dão errado.

Não há nenhum índice, estudo, argumento, que de alguma forma indique que no Brasil a consequência da descriminalização seria diferente do que foi em todos os lugares do mundo.

Se o que você quer é que sejam realizados menos abortos, vem com a gente: descriminalizar resulta nisso.

E você?

Vamos deixar uma coisa estabelecida: a sua vida não é estatística e seus problemas, isoladamente, não configuram um problema social. É preciso mais do que você nessa narrativa, entende?

Eu sei que é difícil analisar qualquer mudança no mundo sem perguntar “mas e a pessoa mais importante dessa história?” ou: “mas e eu? E o que eu penso? E o que eu sinto? E o que eu quero? E as histórias que eu conheço?”

É assim quando surge QUALQUER DIREITO que não se estende a você. “mulheres podem descer fora do ponto de ônibus de noite para não serem perseguidas até em casa e/ou estupradas.”
– mas e EU? E o meu assalto na semana passada? E a minha vida?

“Cotas para qualquer pessoa que não seja você (que continuará com mais chances no processo que qualquer pessoa com cota)”
– Mas e EU? E a minha vaga? E a minha vida?

“Que tal descriminalizar o aborto?!”
– Mas e EU? Eu poderia ter sido abortado! E meu filho que eu quero ter? E a alma que EU acredito que exista? E o meu conceito de vida e santidade?

É assim em tudo, então minha única consideração sobre isso é que você deveria parar, porque sim.

Sério, só pare, a vida não é só sobre você. Porque, bem na verdade, mais importante que você ser contra ou a favor de qualquer coisa, é que você aceite que você não é o centro do mundo, por favor, obrigada.

 

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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