Afroconveniência e preconceito
Precisamos falar.
Que nos chamem de problematizadoras, de problems hunters, ou de esquadrão do textão, mas precisamos muito falar sobre PRECONCEITO e AFROCONVENIÊNCIA.
Depois do aclamado clipe cheio de representatividade, ativismo e incômodo do Childish Gambino – This Is America –, Nego do Borel lança o clipe de “ME SOLTA” com uma batida que é envolvente, música divertida – tudo o que um novo hit deve ter – e o clipe é icônico.
Travestido, de salto, mas pisando torto, com os cabelos descoloridos nos lembrando o bonde do Tigrão, batom, sapato, bolsa e cropped vermelhos, shortinho jeans e completando o look com o bigode, ele representa um personagem divertido, que acorda a todos e comanda a festa, até finalizar a atuação com um beijo em um dos dançarinos, após dizer “deixa eu dançar – me solta”:
Ok. Se o clipe é tão envolvente qual o problema?
Usarei uma analogia que nos é mais familiar para que consigamos criar o entendimento do problema: BLACK FACE.
Black face é o ato de pintar pessoas brancas para que pareçam negras para as interpretar de forma caricata. Foi criado nos EUA quando os negros não podiam subir aos palcos e precisavam de um papel para divertir a aristocracia escravocrata. Afinal, o que era mais divertido que imitar os maus modos de seus escravos, que não sabiam se portar como “gente branca”, vestiam-se de forma irregular e falavam cheios de sotaque, não utilizando a conjugação verbal correta?
Pensemos, hoje com a ~igualdade~ racial garantida por meio da Constituição, quem nós somos na história? Quem é a travesti negra da favela? A verdade é que nós, a sociedade, somos a aristocracia escravocrata que ri da 1-gay, 2- negra, 3- favelada, que não sabe andar no salto, faz combinações horrendas ao nosso ver e é motivo de riso do restante da comunidade.
Mas o NEGO do Borel é negro. Aqui entra a afroconveniência e o preconceito estrutural.
Afroconveniência é auto-explicativa: é conveniente representar o afro.
É conveniente representar a si mesmo de forma caricata como se o tempo todo fossemos personagens aptos a divertir o povo para sermos aceitos. Afinal, chega de sermos negros ativistas, que precisam gritar e se sobrepor para conseguir o nosso lugar. Vamos ser divertidos e dar motivos ao povo para gostarem de nós, mesmo que isso custe a diminuição de outros de nós.
Somos um povo que apesar de tudo que passamos, ainda queremos “lacrar” às custas de quem é morto ou espancado todos os dias. Será que conseguimos mudar o pensamento da aristocracia escravocrata mesmo? E mais, será que os negros e as demais camadas excluídas da sociedade são motivo de riso e chacota?
Eu poderia passar horas escrevendo sobre o pink Money (que mostra o potencial de consumo da comunidade LGBTQIA+), que é outra questão latente no clipe, mas a AFROCONVENIÊNCIA do Nego do Borel, assim como de tantos outros artistas brancos, como Malu Magalhães, que usam a figura negra, precisa ser combatida e discutida, por ser uma forma de exarar o preconceito estrutural que vem como um açoite invisível nas costas da comunidade negra.
Convido à uma reflexão final: quem vai pagar a conta que o preconceito oriundo da afroconveniência deixa?
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Advogada, mestranda do HRAC-USP, especialista em direito à saúde, feminista e NEGRA.