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Bem-aventuradas?

Publicado por:
Polianna Santos
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“Bem aventurados os mansos” (Mt, 5)

Recentemente eu li O Conto da Aia, um livro que me abalou profundamente. Não pelo absurdo, mas pela assustadora proximidade, pela familiaridade com que li determinados trechos, sobre algumas experiências muito minhas, muito nossas. Você seria fervido numa banheira sem perceber….

“Agora eu estou acordada para o mundo. Eu estava dormindo antes. Foi assim que deixamos acontecer. Quando aniquilaram o Congresso, não acordamos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, também não acordamos. Disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente. Você seria fervido numa banheira de aquecimento gradual antes que percebesse.”

Hoje eu estava lendo Eu sei porque o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou. Uma narrativa autobiográfica aterradora. Sobre ser uma mulher negra, algo de que desconheço absolutamente. Tocou meu coração profundamente.

A parte sobre a experiência de ser mulher pode ser muito parecida, e muito diferente. Somos humanos, nada disso deveria ser real. Nada disso deveria acontecer. Ninguém deveria passar por experiências assim.

Deixei o livro um pouco e fui ver o seriado – The Handmaid’s Tale.

E chego nesse ponto. “Bem-aventurados os mansos”. Uma cena do treinamento das aias, em que uma mulher ousa ser …. o que? Ousa, sei lá. Responde. Não aceita.

A outra mulher, professora/governanta/controladora faz essa citação e dá um choque que derruba a mulher, a retira da cena e ela volta, na quadra seguinte, ela é ‘devolvida’, muito machucada e desnorteada.

Eu fui atrás da citação, e bom, é curioso como podemos fazer recortes que nos sejam úteis. De acordo com a referência bíblica, são os mansos bem-aventurados, mas também os misericordiosos. Os limpos de coração, os pacificadores…

Na sequência, outra citação é válida: “O mundo pode ser um lugar atroz”. Eu pergunto, quem faz do mundo um lugar atroz? E nesse caso, vamos resolver isso sendo mais atrozes ainda???? Eu realmente não posso acreditar nisso.

Eu acredito nas pessoas e na humanidade. Na bondade. Sei que o medo pode impulsionar muita coisa, mas eu rezo muito para que não impulsione nosso ingresso nesse universo distópico.

Espero que a história não se repita aqui.

Que a banalização do mal não me alcance.

“Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente…”

Sobre a autora
Polianna Santos

Advogada, professora, empreendedora, sobrevivente. Mulher em processo permanente de revisão.

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