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“E é mulher, né?”

Publicado por:
Roberta Gresta
unsplash.com
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Sempre tive um monte de amigos. Amigos que eu adoro, morro de saudade, viro a noite junto e encho de abraço e mimo, porque não sei ser de outro jeito. Para além desses amigos, tenho colegas, parceiros e contatos, pessoas com afinidades que trazem coisas muito positivas pra minha vida, em forma de projetos e oportunidades.

O legal é que, faz um tempo, o percentual de mulheres nesses dois grupos vem crescendo muito. De amigas-irmãs a referências profissionais e acadêmicas; de parceiras inigualáveis pra tocar projetos a melhores companhias no buteco; de admiráveis colegas que me dão o privilégio de integrar a equipe que por agora coordeno a confidentes íntimas; de professoras competentíssimas a alunas queridas: minha vida está repleta de vibrantes e inspiradoras mulheres e eu amo isso!

A sororidade hoje está na pauta do feminismo. Eu fico feliz por ter tido essa sacada faz uns 15 anos. Tinha algo muito errado em sair da minha boca – e saía! – frases como “não dá pra confiar em mulher”, “mulher é invejosa”, “mulher é difícil demais”, “bom mesmo é lidar com homem, que é direto e sem frescura”, “coisa mais difícil é amizade verdadeira entre mulheres”. Imagina, que horror: eu, dando a vitória maior ao machismo, por ser a oprimida que encampa o discurso do opressor.

Saquei a tempo e fiz um pacto comigo pra mudar essa história: combinei de elaborar, verbal ou mentalmente, sobre cada mulher que eu encontrasse ou que viesse a conhecer, um comentário sincero e extremamente positivo. Ainda que minha primeira reação fosse “o santo não bateu”, o desafio era driblar a antipatia inicial com uma observação sobre algo que eu verdadeiramente admirasse naquela mulher diante de mim.

Isso deu muito certo. Fez com que minha predisposição mudasse. Passei a me enxergar nas mulheres com quem convivia. Tínhamos mais em comum do que eu podia supor. Suas lutas eram admiráveis; suas dores, compreensíveis; suas falhas, simplesmente humanas. Eram pessoas repletas de qualidades que a linguagem machista insistia em transformar em fraqueza (sensibilidade, intuição, flexibilidade, atenção difusa) ou em convencer que não calham a uma mulher (assertividade, capacidade analítica, determinação, liderança). E assim aprendi a confiar e a genuinamente amar as mulheres (tem uma pontinha desse amor até praquelas com as quais, de fato, o santo não bate).

Faz uns dois anos que pude conhecer pessoalmente uma professora e pesquisadora que admiro demais. Foi um encontro mágico: sentamos no restaurante e a conversa fluiu fácil como entre amigas de tempos. A certa altura, minha nova-amiga-de-infância falava das qualidades de uma outra professora, que a inspiravam a querer trabalhar com esta. Mais um golinho de chopp, ela arremata: “e é mulher, né?”. Eu e outra amiga presente assentimos com a cabeça. Nenhuma dúvida pairava sobre o que aquela frase queria dizer ali: ser mulher era uma razão a mais pra querer firmar uma parceria com alguém. Sorri ao pensar que o que estava perfeitamente entendido entre as 3 mulheres que conversavam era diametralmente oposto ao que significava dizer ou ouvir, 15 anos atrás, “e é mulher, né?”.

O caminho é esse. O feminismo começa por enfrentarmos o machismo que nos habita.

Sobre a autora
Roberta Gresta

Cresceu ouvindo que era uma menina "cheia de opinião", teimosa, atrevida e inconformada. Um dia, entendeu que esses eram seus melhores atributos pra ser uma mulher capaz de fincar pé nesse mundo de homens. Por isso, escreve.

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