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E esse título de feminista sensata, vocês estão disputando com quem?

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Acordei e minha bolha social estava alvoroçada.

 

Em alguns minutos descobri que a discussão do dia era se a Kéfera foi grossa ou tem razão – como se uma coisa necessariamente excluísse a outra.

 

Vi o vídeo da Kéfera no Encontro, vi um ou outro texto rolando aí, vi feministas bravas, muito bravas, com a Kéfera, com quem defendia a Kéfera, com quem estava do lado da Kéfera, e outras bravas com as que estavam contra a Kéfera.

 

E aí vocês me desculpem, mas tudo que eu consegui pensar nisso tudo foi: como foi que no meio de um ano politicamente tão significativo para as mulheres, a gente chegou aqui nessas disputas?

 

Quando foi que a gente caiu na armadilha de disputar o título de feminista sensata?

Porque, por trás disso tudo, a disputa que tá rolando é essa. E o parâmetro da sensatez é sempre definido por uma ideia meio geral de como uma mulher deve se comportar, e aí, esticando mais um tiquinho, a gente descobre que esse título é dado sempre, sempre, sempre, por homens, mesmo quando é a gente que tá brigando.

 

E é bem disso que eu quero falar um pouco mais, não que eu ache que é muito mais importante falar disso, é porque eu tô quase não acreditando que isso tá acontecendo.

A feminista sensata e os homens bons que a rodeiam

 

Toda feminista sensata é rodeada de homens bons.

 

Eu, como boa jovem solteira que sou, saio vez ou outra com alguém. Eis que os homens com quem eu saio e que percebem que o feminismo é algo importante pra mim, tendem a me achar uma feminista muito da sensata, dessas “que dá pra conversar”.

 

Confesso que nas primeiras vezes isso mexeu com meu ego. Mas aí eu fui descobrindo, aos poucos, que a sensatez do meu feminismo dura até um ponto: até eu discordar deles. Ou, pior, e esse é absolutamente fatal para meu título recém adquirido: até eu apontar neles uma postura ou ideia que eu considero machista.

 

É fato público e notório que todo homem que se sente no direito de distribuir os rótulos de feministas sensatas por aí, se acha um homem bom demais para ser criticado ou apontado como machista por uma mulher com quem convive. Se ela faz isso é porque claramente é muito radical, não o valoriza, não conhece sua história, é injusta, e uma pessoa assim pode ser tudo, menos sensata.

 

É por isso que o primeiro passo para ser uma feminista sensata é você se cercar de homens bons, que vão sempre te lembrar de como você é mais sensata, adorável, inteligente e respeitável que essas histéricas por aí.

 

O problema é que não é você que define quem são os homens bons, nunca foi.

 

Hannah Gadbsy, essa mulher que explodiu com Nannete, de quem já falamos aqui nesse blog, no comecinho desse mês fez um discurso poderoso sobre homens bons, você pode ver o vídeo todo aqui, e ainda ler a tradução que a Casa da Mãe Joana deixou no mesmo link.

 

Mas em resumo, o que ela é diz é que estamos cercadas de homens bons traçando, eles mesmos, a linha que separa os homens bons dos homens maus. E o grande problema dessa linha é que, por ser traçada por eles, ela muda quando é conveniente.

 

“Você sabe por que precisamos falar sobre essa linha entre homens bons e homens maus? Porque são apenas bons homens que conseguem traçar essa linha. E adivinha? Todos os homens acreditam que são bons.

 

Precisamos falar sobre isso, porque adivinha o que acontece quando apenas homens bons conseguem traçar essa linha? Este mundo – um mundo cheio de homens bons que fazem coisas muito ruins e ainda acreditam, do fundo de seus corações, que são homens bons porque não cruzaram a linha, porque eles movem a linha para seu próprio bem. As mulheres devem estar no controle dessa linha, sem dúvida.

 

(…)

 

Todo mundo acredita ser fundamentalmente bom, e todos nós precisamos acreditar que somos fundamentalmente bons, porque acreditar que somos fundamentalmente bons faz parte da condição humana. Mas se você precisa acreditar que alguém é ruim para acreditar que você é bom, você está traçando uma linha muito perigosa.

 

De muitas maneiras, essas linhas na areia que todos desenhamos são histórias que contamos para nós mesmos, de modo que ainda podemos acreditar que somos pessoas boas.”

 

E como ainda não somos nós, mulheres, que traçamos a linha entre homens bons e homens maus, em alguns momentos parece que fica claro que ainda é o discurso desses homens bons que regula toda a nossa lógica de convivência, e que cria essa disputa entre as mulheres que estão sempre tentando ser consideradas boas pelos homens bons.

 

Acreditem, esse título é frágil. E dura até que você questione a bondade deles, até que questione o traçado da linha.

 

Eu nem entro aqui no mérito de Kéfera estar ou não correta em como agiu ou não agiu, se acertou ou não sobre os conceitos de feminismo que expôs, meu foco é a armadilha de estarmos gastando essa energia pra falar que ela não agiu como nós achávamos correto. Que pra falar de feminismo ela não podia ousar parecer raivosa, ela não podia “prestar esse desserviço ao feminismo”, “dando razão” aos homens que nos acham grosseiras.

 

Por isso, pra não cair na lógica do seu discurso sutil porém cruel, é importante duvidar dos homens que se acham bons. Por isso é importante, ainda mais, duvidar dos homens que nos acham mais sensatas, que nos acham mais respeitáveis que as outras, que, ainda que de forma muito sutil, diminuem as outras para nos elogiar.

 

É só uma nova forma de mostrar que “você não é como as outras”, mas acredite, você é.

 

Rupi Kaur. Outros jeitos de usar a boca.

 

Hoje a Kéfera falou mais firme, se errou, se acertou, se tem que pedir desculpa ou se não tem que, isso é outra discussão.

 

Mas eu apostaria o que fosse que hoje já tem mulher apontado machismo nos homens bons que a cerca e ouvindo que “tá parecendo a Kéfera”.

 

Todo dia será uma de nós a louca grosseira, todo dia, não se enganem, isso não tem nada a ver com estarmos certas ou erradas.

 

Não vamos comprar essa briga, não é essa nossa luta.

 

A Kéfera foi grossa, mas tá e daí?

 

Aí pensando nessa coisa de querer ser vista como sensata é que eu pergunto: Estamos brigando para sermos vistas como sensatas por quem, afinal?

 

A Kéfera foi grossa no programa da Fátima? Não sei. Meus mais sinceros a tá pra essa questão.

 

Não me importa, porque fiscalizar quando uma mulher é grossa com um homem não tá na lista das minhas pautas.

 

Isso só “atrapalha o feminismo” (vi gente falando isso, juro) se a gente sucumbe à essa lógica masculina de docilizar nosso discurso, de achar que devemos ser meigas e boas, de que temos que controlar nosso tom, de que temos que saber como falar com eles.

 

Porque “assim é claro que não querem falar com a gente”. Assim “é claro que não dá pra conviver”. Somos raivosas. Somos histéricas. Somos excessivas, radicais.

Esse discurso vai ganhando novas formas de mais do mesmo.

“Podemos ser feministas, é claro, mas no tom certo, na hora certa, do jeito certo e não vamos deixar que outras feministas estraguem essa imagem de feminista dócil que tanto nos empenhamos diariamente para construir.”

 

Eu até entendo uma parte da população masculina pirando com isso. Especialmente a parte que já teve dedos apontados para seus machismos diários e pautou sua defesa na “grosseria” de quem apontou. Esses jamais perderiam a oportunidade de gritar que “aí, ó, tá vendo?”.

 

Mas porque exatamente nós, mulheres, estamos comprando essa briga? Porque exatamente a gente tá discutindo por isso?

 

Na boa, se feminista sendo grossa é pauta, uma semana comigo e vocês vão ter pauta pra mais de ano.

 

Sabe, uma mulher pode ser grossa.

Ela talvez não deva, como os homens também não devem, e ela pode errar, perder a mão, pedir desculpa se quiser, não pedir se achar que está certa, mas eu nunca vi um alvoroço nacional porque um homem falou de forma grosseira com alguém.

 

Na verdade, eu não vi esse agito nem pra coisas muito piores que homens já fizeram por aí.

 

Pra falar mal de agressor de mulher tem homem por aí pedindo trânsito em julgado, mas pra falar mal de feminista que foi grosseira com homem, aí tá suave.

 

Mulher não pode ser firme, mulher não pode ser objetiva, mulher sendo grossa sempre vira pauta, exemplo de má conduta, o alvo dos dedos apontados.

 

Mas aí os nossos dedos também?

 

Porque mulher quando fala de feminismo, do feminismo dela, da vivência dela, tem que ser fiscalizada por nós também? Vamos nós falar do tom? Cassar a carteirinha de feminista?

 

Gente, na boa, é pra isso que a gente tá aqui?

É pra disputar e avaliar quem é a melhor feminista?

Vocês me desculpem, mas se for isso eu tô de fora.

 

Primeiro porque eu não acho que ódio seja algo pelo qual as mulheres devem pedir desculpas, não acho mesmo.

 

Roxane Gay, outra maravilhosa que tem um livro e uma palestra chamada “Bad Feminist”, já falou exatamente que:

 

“Quando era mais jovem, boa parte da minha adolescência e 20 anos, tive ideias estranhas sobre feministas como sendo mulheres peludas, odiosas, que odiavam homens e sexo… como se essas fossem coisas ruins. (Risos) Hoje em dia, vejo como as mulheres são tratadas no mundo todo, e ódio, em particular, parece ser uma resposta perfeitamente razoável.”

 

No mesmo discurso ela fala sobre essa coisa de colocarmos as mulheres feministas numa avaliação constante de sua conduta, exigindo delas uma forma exata de ser e de se comportar:

 

“E tem mais isso: como feminista, sinto muita pressão. Temos a tendência de colocar feministas notáveis em um pedestal. Esperamos que elas posem perfeitamente. Quando elas nos decepcionam,nós alegremente as derrubamos do mesmo pedestal onde a colocamos. Como eu disse, eu sou um desastre… Imaginem-me despencando do pedestal antes mesmo de me colocarem lá.

 

(…)

 

Nós exigimos perfeição das feministas, porque ainda estamos lutando por muito, nós queremos muito, e precisamos de muito mesmo.

 

Vamos muito além da sensatez, da crítica construtiva, para analisar qualquer feminismo da mulher, dilacerando-o até que não reste mais nada. Não precisamos fazer isso. Feminismo ruim — ou feminismo mais inclusivo — é um ponto inicial”

 

Se as mulheres que estão jogando pedras nessa mulher que, por uma reação em um programa de televisão “estragou a imagem do feminismo” (adicione um certo drama nessa frase) estão buscando manter seus títulos de feministas sensatas que não perdem a cabeça à toa (título esse que o rapaz do vídeo, numa frase completamente confusa, estava negando à uma mulher a quem ele pediu uma informação, caso vocês não tenham notado), eu só posso lamentar, com sinceridade, por essa busca.

 

E se os homens que estão vivendo esse frisson de falar da grosseria da Kéfera se preocupassem o mesmo tanto com os pequenos machismos diários seus e de seus colegas, o mundo já seria um lugar mais fácil pra gente.

 

E acho que pra eles também, porque claramente não sabem lidar com nossa raiva.

 

Então meu conselho é que se importem em ajudar, com essa mesma energia, a construir um mundo que nos deixe menos furiosas. Porque isso inclui todo mundo, inclusive os homens que se acham bons demais para serem enfrentados por feministas insensatas.

 

 

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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