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Essa mãe vagabunda que só queria sexo: o show de horrores do machismo estrutural

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Esses dias eu estava recordando que quando era criança, lá pelos 6 anos, eu ganhei um livrinho que ensinava a fazer “carinhas” com elementos do teclado. Vinha o símbolo, como acessar aquele símbolo (nem todos estavam no teclado do computador, eram uma combinação de alt + números) e a legenda de o que significavam:

 

:  + – + ) cria a carinha  :- ) (feliz)

 

Parece tosco hoje, num mundo de emojis, mas era o início de um novo código de comunicação e nem todas as pessoas entendiam esses códigos.

 

Algumas pessoas mais velhas, pouco ambientadas com essa linguagem, não entendem se recebem =] como resposta a uma mensagem. (Hoje algumas pessoas mais novas também não.)

 

Da mesma forma, algumas pessoas que não são muito presentes em ambientes virtuais não entendem hoje os memes com escrita totalmente errada e frases irônicas, é um código que elas não dominam, dominam a língua e entendem as imagens, mas para entender a ironia do meme é importante estar imerso num ambiente onde ele faz sentido.

 

Trago isso pra dizer que a compreensão daquilo que se diz depende, invarialmente, da compreensão daquilo que não se diz.

Da compreensão não apenas de uma língua mas dos códigos sociais que dão sentido ao que é falado.

 

Quando uma pessoa fala algo que confirma e se conecta diretamente com todos esses códigos, ela não precisa relembra-los.  As pessoas compartilham deles, já partem dessas premissas.

 

Ocorre que em uma sociedade que é estruturalmente machista (também conhecidas como: todas), o não dito é essencialmente cruel para as mulheres. Especialmente quando elas precisam apresentar sua narrativa contra uma outra narrativa que tem como base todo esse não dito compartilhado pela maioria.

 

Porque aí ela precisa não apenas contar sua versão, mas explicar uma a uma das premissas para mostrar que, bom, talvez coletivamente a gente parta de ideias erradas.

 

Isso acontece sempre que uma mulher abre a boca para denunciar um estupro.

 

A crueldade já começa na luta (sempre muito bem lutada por todos os homens) de confirmar a existência dessa figura da mulher inescrupulosa que acusa indevidamente um homem para se vingar dele por qualquer coisa e/ou se promover.

 

Embora todas as estatísticas comprovem que isso acontece com uma frequência ínfima, embora a realidade mostre que em regra essa mulher que denuncia o estupro sempre sofre mais consequências negativas que o homem acusado, mesmo com a realidade mostrando que quase nenhum homem tem impacto significativo na sua carreira por abusar de uma mulher, essa personagem cruel e desalmada que quer destruir a carreira de homens incríveis é sempre relembrada por um coro de homens preocupados.

 

Depois disso o discurso passa a análise do desejo dessa mulher. Se queria ou não queria. Se “estava pedindo” ou não. Porque coletivamente as pessoas estabeleceram que existem sinais visíveis, para além da manifestação expressa de desejo, que definem a existência ou não de desejo de uma mulher. Mais que isso, quando falamos de sexo, estabeleceram que se ela estava numa situação onde poderia acontecer um ato sexual é porque, bem na verdade, desejava. Ou, se não desejava, ao menos “assumiu o risco”, como se sexo fosse um risco, uma fatalidade, não um ato consentido e ativamente praticado por todos os envolvidos.

 

Depois de decidido se ela desejou ou se expôs (e se ela acusa um estupro a resposta é sempre de que sim, desejou e se expôs), vem mais uma etapa do julgamento, se ela podia desejar, se tinha direito à isso, se podia dispor do seu corpo, do seu prazer, da sua vida. E aí, pelos mais diversos motivos, a conclusão é que nenhuma mulher pode. Porque devia estar em casa com a família, porque devia se preocupar com quem se relaciona e não sair por aí fazendo sexo no primeiro encontro, porque é casada e não devia estar traindo o marido, porque é mãe e devia estar em casa dando exemplo, os motivos pelos quais uma mulher não pode dispor de seu próprio desejo são infinitos.

Se uma mulher deseja sem poder desejar, se coloca onde não devia, e ainda pode agir cinicamente somente para prejudicar um homem, bom, ela merece ou ao menos estava disposta a viver o que quer que aconteça com ela nesse contexto, não é mesmo?

 

E aí, pedindo que todos mantenham em mente que a personagem da vagabunda traiçoeira e impiedosa existe, lembrando a todos que existem sinais que demonstram o desejo, lembrando que algumas mulheres estão impedidas de desejar, àquele que deseja desqualificar a narrativa dessa mulher basta dizer uma frase: “Ela que me provocou e mandou essas mensagens, eu até ia levar um presente para o filho dela.”

Ele não precisou falar em ‘maria-chuteira’ para que o apelidinho pejorativo começasse a surgir por aí.

(E nem vou entrar aqui no mérito de que todos os homens adoram falar em maria-chuteira mas nenhum deles fala do ‘joão corpo-malhado-padrão’, porque aí talvez a gente acabe dando um salto e chegando no estranho fato de que toda mulher tem uma amiga que já foi estuprada mas nenhum homem tem um amigo estuprador e acho que isso é demais pra um texto só)

 

Hannah Gadsby chamou atenção para a construção dessa imagem nos diversos casos de denúncias que envolvem homens famosos:

Diminuímos a potencialidade dessa mulher só porque já conhecemos a potencialidade do homem e achamos que ela jamais será como ele.

Essa mulher que não é e nem nunca será ninguém está tentando diminuir esse grande homem.

Essa mulher que não é ninguém está tentando ser alguém às custas desse grande homem.

Neymar é um homem adulto (embora até isso tenha que ser relembrado, já que coletivamente partimos da premissa de que garotos – especialmente os ricos – perto de uma mulher são só garotos e todo esse blablabá).

Um homem muito rico e muito bem assessorado. Um homem com um poder de disseminação de sua narrativa muito evidente.

Neymar, depois de acusado, sempre tão esperto, não deu um passo sem assessoria, construiu seu discurso de defesa de forma absolutamente articulada e bem pensada para conversar com esse imaginário coletivo e pintar, desde o primeiro dia, a imagem da vagabunda que, no fim no fim, não só queria estar ali, como merecia qualquer coisa que acontecesse por querer estar ali.

 

É difícil sair por aí afirmando o que aconteceu entre quatro paredes. Fez ou não fez. Foi ou não foi. Tem vídeo, mas não tá inteiro. Tá gravado mas não se sabe o antes. As variáveis são muitas e devem ser avaliadas no local e momento adequado para isso.

 

Mas tem uma coisa nisso tudo que precisa ser dita: essa captação das narrativas por homens segue sendo uma forma cruel de violência amplamente aceita.

 

Essa construção passa por tudo.

Neymar vai depor de cadeira de rodas. As notícias dizem que precisou ser amparado na delegacia, o vídeo no qual “inocentemente” divulgou a conversa toda com a moça apenas para mostrar como ele não fez nada.

A divulgação de que o jogador tem uma advogada feminista veio não por outro motivo.

É importante registrar, qualquer pessoa pode advogar para quem quiser, advogar para Neymar não torna ninguém menos feminista, assim como advogar para Najila não faria de ninguém menos machista. O que é questionável é a instrumentalização da causa para a defesa. Como se feminismo fosse sobre “denúncias que são ou não verdade” e não sobre essa estrutura cruel toda.

Neymar constrói milimetricamente sua imagem de vítima enquanto entrega para o público uma mulher indigna que pode ser apedrejada, isso vem para livrá-lo da denúncia previamente e, o que importa mais para a massa que engrossa o coro: para servir de exemplo para as muitas outras que pensarem em denunciar quem quer que seja.

Fica o aviso não dito, mas claramente compreendido por todas:

É melhor pensar bem, é melhor pensar melhor.

:- (

 

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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