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Eu nunca quis engravidar

Publicado por:
Vivian Fiorio
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Mas sempre quis ser mãe. E isso sempre provocou um auê danado entre as pessoas, me levando a criar vários tipos de explicações para gerar debates, fazer a pessoa refletir, ou até pra me aperfeiçoar em fugir da conversa cada vez mais rápido.

 

Estamos numa vibe de mães revolucionárias que ousam contar ao mundo que não estão felizes com a maternidade. Aliás, não apenas as mães, mas também mulheres que não quiseram ter filhos e hoje conseguem manifestar isso sem culpa.

 

Foi um movimento que começou há pouco, mas como um viral, cuja taxa de identificação é alta, logo várias mulheres passaram a se pronunciar a respeito do assunto.

 

E o que está por trás dessa “desromantização materna”? Vamos voltar à minha história, há muito dessa interpretação aí.

 

Desde muito pequena eu tenho definida essa ideia de ser mãe por adoção. Sempre conto isso quando me perguntam e eu gosto de esclarecer, pois muita gente pensa que as pessoas só adotam crianças quando não podem mesmo engravidar. A adoção é ainda vista como segunda opção de maternidade, uma amenização do desejo de ser mãe.

 

Só que pra mim isto não foi assim. Eu não sei dizer de onde surgiu meu desejo, pois em toda a minha família e no meio onde eu vivia não se falava em adoção. E eu tinha fixa a ideia de que teria pelo menos um filho, que o adotaria “já crescido” e que julgava que fazer o amor surgir dessa relação seria mágico.

 

Então esse meu sonho anulava qualquer possibilidade de eu aliar maternidade com gestação, simplesmente não me ocorria esta ideia.

 

Lembro que uma vez estávamos em um jantar familiar, eu devia ter uns 8 anos. Não sei porque falei sobre isso à mesa e um parente  retrucou: isso é um grande erro, assumir o problema criado por outras pessoas! Não é da sua conta, você precisa ter um filho seu de verdade.

 

O tempo passou e eu segui ouvindo comentários desse tipo, até que de fato entramos com o processo de habilitação para adoção. Aí os comentários foram diversos.

 

Em tempo: quando decidi ser mãe por adoção, eu não sabia se podia ou não engravidar, não sabia que teria um casamento homoafetivo, nada disso foi previsto.

 

Mas eu seguia ouvindo as mesmas perguntas:

 

– Você não pode engravidar?

 

Ser mãe por adoção no Brasil é considerada a opção final, o “se nada der certo”. Por isso muitas mulheres só vão para a adoção depois dos 35 anos, quando “desistem de serem mães” e “aceitam” a ideia de ter uma criança “que não é sua”.

 

– Você não tem curiosidade de saber como seria um filho seu de verdade?

 

Existe esse conceito de que ter filho é como um experimento científico, tal desejo não está relacionado à ideia de que aquele ser terá uma vida independente da sua, é apenas um jogo de genes.

 

– Mas e se a criança tiver problemas genéticos?

 

Fomos literalmente treinados a considerar aceitáveis as falhas e problemas provenientes do nosso histórico genético como maneira de fortalecer a ideia de clã.

 

Seguido pelas evidentes surpresas:

 

– Mas toda mulher sonha em engravidar!

 

Sobre a romantização da gravidez, como se somente assim a mulher tivesse a realização plena de sua existência.

 

– Você deve estar com medo de engordar só pode!

 

Sobre a negação à vaidade feminina e a banalização do seu desinteresse pela gestação, como se a única coisa que pudesse ser relevante à mulher é a questão estética.

 

– Tem algo estranho aí, você teve algum trauma?

 

Sobre a ideia da vocação inata, como se todas as mulheres devessem naturalmente desejar engravidar e, caso neguem isto, sem dúvida há um problema psicológico envolvido.

 

Como é intrínseca essa relação que as pessoas fazem entre a realização feminina e a gestação. A ponto de que qualquer mulher que manifeste um desejo diferente disto é rapidamente considerada anormal.

 

Essa ideia de que a mulher existe para gerar foi perpetuada por séculos já causou imensos estragos!

Quantas mulheres foram obrigadas/pressionadas/forçadas mesmo a ter vários filhos para fim de justificar sua existência?

E quantas outras adoeceram por anos de subjugação, a ponto de viver uma vida completamente nula em nome da sua função materna?

 

Isso para não falar de milhares de mulheres que sofrem de depressão pós-parto, no entanto sem qualquer tipo de assistência, e escondem seus sentimentos para não se serem julgadas, consideradas defeituosas por “não amarem seus filhos”.

 

Cada manifesto em defesa da mãe que quer ter vida e que mostra a realidade da maternidade de maneira diferente daquela que é vendida como perfeita foi feito com uma dose extra de coragem para expor o que até então sempre foi considerado repugnante, vergonhoso e errado.

 

Ser mãe é uma escolha, é necessário que o seja!

 

Pois, tal como qualquer coisa que façamos na vida, é preciso realmente desejar assumir a responsabilidade da maternidade.

 

A mulher precisa aceitar a mudança que vai viver, ela precisa querer ter um ser crescendo dentro dela e precisa realmente desejar a transformação que se seguirá em sua vida.

 

Simplesmente por que existe a opção de não o fazer e isso não nos torna menos mulheres.

 

Nós não temos que povoar o mundo, não temos que dar seguimento genético, não temos que levar adiante o nome da família. Estes e outros conceitos foram perpetuados para objetificar a mulher e conduzir gerações e mais gerações a um sofrimento silencioso.

 

Eu amo ser mãe da forma como escolhi ser. Não me sinto menos mãe por não ter ligação genética com meus filhos, mas de fato sei que só amo o que tenho porque fiz o que queria ter feito: ser mãe sempre foi um desejo meu que eu respeitei.

 

Toda mulher precisa se sentir livre para escolher o que deve fazer com seu corpo, sua mente e sua vida. Há um peso emocional nessa escolha e não há qualquer razão para que isto não seja respeitado.

 

Se perguntarmos a cada mulher de cada geração da nossa família até nossos ancestrais:

 

– Se você pudesse ter feito apenas o que realmente desejasse, teria sido mãe?

 

Acredito que metade da população mundial não existiria.

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*O lugar da fala acolhe a expressão de cada uma. As autoras do blog não interferem nas escolhas das colaboradoras quanto ao uso da linguagem, ao estilo de escrita, à gramática e à sintaxe. A revisão feita é meramente técnica, para correção de eventuais erros de digitação, todo o resto será tratado como opção de estilo da autora.

Sobre a autora
Vivian Fiorio

Mãe, jornalista e empresária, tudo ao mesmo tempo e com muita paixão. Desde que se tornou mãe, seu olhar para o mundo mudou e hoje ela procura trazer esse olhar para tudo o que faz na vida.

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