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Manual mínimo do 8M para mulheres brancas: não sejamos babacas!

Publicado por:
Roberta Gresta
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Faz poucos anos que o 8M começou a retomar, em escala mundial, seu real significado de luta, com greves de mulheres que contestam o fato de apenas importarem, no capitalismo, como força de trabalho, em geral sub-remunerado em relação aos homens – ou não remunerado, no caso do trabalho doméstico gratuito perversamente transmudado em “natural vocação feminina para o cuidado”.

Quando mulheres adotam o slogan “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”, escancaram que o gênero é um fator de opressão econômica que redunda na vulnerabilidade social da mulheres, ao ponto de que sua vida e sua morte, bem como todas as suas escolhas, fiquem à mercê de decisões tomadas por homens. A ideia de mostrar que mulheres produzem riqueza e, por isso, devem ser iguais aos homens em direitos e poder de decisão tem inegável raiz socialista, que expandiu sua contestação para a apropriação dos corpos e dos destinos das mulheres.

De fato, mesmo na Rússia pré-revolucionária, com a larga tomada de consciência de classe do proletariado, os homens consideravam que as reivindicações das mulheres enfraqueciam o movimento.

Trabalhadores que tanto se indignavam contra a exploração por outros homens estavam aparentemente muito confortáveis em seu privilégio de gênero, que lhes permitia se eximir do trabalho doméstico e do cuidado dos filhos sem pagar por isso.  Mais-valia era papo da porta de casa pra fora. Mesmo na fábrica, a desculpa da unidade da causa minimizava questões relacionadas aos abusos morais e sexuais, às mulheres gestantes e às mães.
(Acertou quem percebeu que esses são os ancestrais dos esquerdomachos.)

Foi preciso então que as mulheres fizessem a sua própria revolução. E, de quebra, arrastaram também os homens pras ruas. Em 8 de março de 1917, a Revolução Russa começou pelos passos e vozes corajosos de mulheres pedindo “pão e paz”.

De lá pra cá, o feminismo foi construído como filosofia e se desdobrou em várias vertentes. Feministas seguem denunciando o patriarcado como estrutura de dominação assentada em papéis de gênero. E seguem lutando tanto contra a violência que daí decorre, quanto contra a naturalização e legitimação dessa violência.

Cortando pra 2020: “se eu tenho privilégios é porque eu mereci”

Como seria de se esperar no atual contexto de agudos retrocessos civilizatórios, coroado por um investimento incessante em propaganda ideológica, o feminismo vem sendo atacado, inclusive por mulheres que supostamente querem afirmar uma luta por direitos das mulheres “fora da esquerda”. Recebem os esperados aplausos de homens que elogiam suas qualidades. Segundo eles, essas mulheres “meritórias” provam o equívoca das muletas das pautas identitárias, que elas orgulhosamente dispensam.

Só que a tal luta pelos direitos “das mulheres” se confunde, nesse caso, com simples ambições de progresso na carreira por mulheres economicamente bem situadas, talvez acompanhada de um desabafo contra críticas a suas escolhas, roupas, hábitos. São mulheres que, mimetizando o autoengano que homens cultivam sobre seu sucesso, acham que chegaram onde estão apenas por si próprias.

Esse discurso antifeminista, ainda mais individualista que o próprio feminismo liberal, só é possível a quem, por sua condição social e econômica, está menos vulnerável à violência de gênero, especialmente às formas mais graves desta.

Realmente, não precisa lutar por direito ao aborto seguro como política de saúde pública quem sabe que, se precisar, pode pagar pra abortar em segurança e sem medo de ser presa. Assim como o privilégio de poder pagar outras mulheres para exercerem funções domésticas e de cuidado com a família atenua o significado “da dupla jornada”. A independência econômica abre a possibilidade para o basta a relações abusivas, que pode ser a salvação do espancamento e do feminicídio.

Mesmo o cotidiano fato de conhecer as ruas mais de dentro do carro que a pé ou no transporte público exclui um universo inteiro de riscos, que vão do assédio ao estupro e assassinato. Sem contar que é chique ser lésbica quando se circula modelete e fashion no jet-set descolado; vá é ser “sapatão” e, sim, mulher transexual andando pelas ruas.

Os exemplos seguiriam infinitos, e colocam a mulheres brancas economicamente independentes, como eu, a obrigação de não sermos… bem, babacas.

“Babaca, eu? Cadê a sororidade?”

Desculpem, eu cheguei a esse ponto do texto achando que haveria palavra melhor, mas não encontrei. “Babaca” é a palavra que define o cara que acha que seu sucesso não é fruto de privilégios, que defende meritocracia sem ter disponibilidade nenhuma pra igualar os pontos de partida, que não enxerga o sofrimento de pessoas fora de seu mundinho (ou enxerga, mas interpreta como justo), que qualifica como mimimi todo problema social que não lhe afeta.

Babaca é, em síntese, quem deslegitima a luta contra a violência estrutural porque, se vendo em algum ponto a salvo do inferno que ela provoca, acha bom que esse lugar seguro não esteja assim tão povoado por potenciais concorrentes. Se uma mulher age assim, não há como evitar a conclusão, ela é babaca.

Veja, nenhuma mulher está obrigada a ostentar o feminismo como bandeira. Evidentemente, muito menos ser de esquerda.

Qualquer mulher, por mais privilegiada que seja, sempre estará em desigualdade com seu “equivalente” homem. Por isso, mesmo autoproclamadas “não feministas” ou “de direita” têm sua cota de perrengue chique na labuta diária de convencer os colegas homens de seu valor e os maridos das suas vontades.

Se é aí que você quer parar, ok. De verdade, ninguém se importa se uma mulher privilegiada escolheu viver assim, até porque essa escolha, em si, só existe por conta dos privilégios mesmo.

Mas colocar energia em apagar a origem histórica do 8M e ocupar seu tempo deslegitimando a luta feminista de mulheres negras, indígenas, periféricas, transexuais e tantas outras subalternizadas, tudo para exaltar sua afirmação individual como mulher que venceu por conta própria, isso é coisa de babaca.

Por isso é que não tem como colocar de outra forma. Mulheres brancas, “empoderadas” às custas de tantas outras desigualdades: não sejamos babacas!

Ah, e se for pra ser e desfrutar de aplausos da macharada, convivam com a crítica e o fato de que outras mulheres têm mais o que fazer do que solidarizar com seus perrengues. Quando acordarem, se acordarem, a gente conversa sobre sororidade.

Sobre a autora
Roberta Gresta

Cresceu ouvindo que era uma menina "cheia de opinião", teimosa, atrevida e inconformada. Um dia, entendeu que esses eram seus melhores atributos pra ser uma mulher capaz de fincar pé nesse mundo de homens. Por isso, escreve.

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