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O autor sou eu mesma

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Existem várias ideias que permeiam o que eu vou falar aqui.

A primeira é que o machismo pode também estar nos detalhes (e geralmente está), a gente bem sabe.

A segunda é que o machismo não é necessariamente uma intenção, é uma estrutura, uma forma de ver e ordenar as coisas. Como somos criados dessa forma, o machismo pode ser inclusive a forma que nos parece mais automática, imediata e lógica de ordenar as coisas. É por isso que o machismo é estrutural, é por isso que romper essa estrutura é uma desconstrução, é por isso que temos que ficar atentos.

A terceira é que essas feministas veem machismo em tudo, pois é, e isso acontece porque possivelmente ele está em muitas coisas mesmo.

Mas apontar machismo nem sempre é um ataque, inspirem, expirem, e vamos falar de coisas que passam despercebidas.

Eu escrevo, eu escrevo já tem muito tempo, mas é bem recente na minha vida tornar meus textos públicos. Colocar meus textos pra jogo me fizeram perceber, com o tempo, algumas coisas:

 

  1. Eu realmente gosto de escrever, sinto prazer na verbalização e na maioria das vezes tenho orgulho do resultado do que escrevo.
  2. Eu escrevo bem e eu tenho um estilo próprio de escrita, que é meu, que eu desenvolvi, que é a minha forma de comunicar. Tem gente reconhecendo isso e é importante que eu reconheça também.
  3. É importante pra mim que um texto que eu escrevi seja identificado como meu.

 

Considerando essas três coisas eu comecei a me manifestar em situações que antes eu só deixava pra lá, como ver um texto meu ser divulgado sem indicar a autoria. Me incomoda, e agora eu falo.

Foi numa situação dessas que comecei a prestar atenção numa coisa que seria apenas curiosa se não fosse tão comum.

Escrevi um texto no Facebook e rolando a tela da rede social vi o mesmo texto, copiado e colado, por outra pessoa. Comentei imediatamente:

 

 

 

Isso passou, ficou pra lá. Eis que fui buscar no meu Facebook um outro texto sobre outra coisa, que um amigo queria ver. Nisso parei pra ler comentários desse e de outros textos no “caminho”.

Um comentário dizia “ok, o texto apresenta uma série de críticas, mas e a solução?”, ao que uma outra pessoa respondeu “o autor deixou claro no texto que não sabe a solução”.

Comentários que me pediam pra indicar a fonte de onde tirei o texto. Comentários outros que debatem o texto “do autor”. A coisa é comum, eu que nunca tinha reparado.

Lembrei inclusive que quando escrevi a história da minha bisavó recebi mensagens que antes de parabenizar perguntavam “o texto é seu mesmo?”, “sim”, “nossa, parabéns, deveria escrever um livro”.

Parece bobagem, eu sei, mas percebi que pra muita gente parece mais plausível a ideia de que eu tenha copiado o texto – de um homem – e colocado ele ali, sem indicar a fonte, do que entender que fui eu mesma que escrevi aquilo.

A ideia automática, o pensamento que parece lógico, é de que um homem escreveu aquilo.

Fui pesquisar mais sobre isso e, obviamente, não vem do nada. Existem estudos que mostram que homens tendem a não ler autoras mulheres, é histórico o fato de que autoras brilhantes escreviam sob pseudônimos masculinos ou neutros.

George Elliot, um dos nomes mais conhecidos da literatura inglesa, é Mary Ann Evans. Joanne Rowlling foi convencida a assinar a série Harry Potter como J.K., pois meninos não leriam uma obra escrita por uma mulher. Emily Brontë assinava suas obras como Ellis Bell.

Na verdade, não é só na literatura que mulheres se faziam passar por homens para ter algum espaço e para poder atuar de forma menos estereotipada.

Porque a razão de as autoras se esconderem em nomes masculinos é, por vezes, uma questão comercial (autoria masculina – ou que não seja imediatamente identificada como feminina – vende mais) e em outras tantas uma questão de liberdade – quando se vê uma autora mulher há uma postura que se espera dela, ainda há a ideia de que mulheres apenas escrevem romances leves, voltados exclusivamente para outras mulheres.

 

E como tudo que amarra o conceito tradicional de o que é o feminino, essa expectativa é aquilo que faz com que mulheres sejam menos aceitas na literatura e, ao mesmo tempo, é algo que elas não podem contrariar. Basicamente a ideia de que precisam saber seu lugar. Devem escrever de forma doce, delicada, voltada à um público especifico, e se contrariarem isso serão lembradas do quão desnecessariamente agressivas elas soam, do quão masculina parece a escrita, do quão indelicadas são suas ideias.

Svetlana Aleksiévitch, Nobel de literatura, disse em entrevista recente que “quando começou a escrever sobre guerras, escutou que estava no lugar errado, já que em seu país espera-se que as mulheres façam poesias “sobre flor, amor”. “Por ser mulher eu não poderia abordar esse tipo de tema pesado e sofrido, já que esta seria uma literatura masculina.

Isso cria um cenário no qual todos nós crescemos: um mundo literário predominantemente masculino, naturalizamos, assim, a ideia de que existem mais autores homens – estes que escrevem em diversas linguagens sobre todos os temas – e algumas poucas autoras mulheres, que escrevem para outras mulheres, numa linguagem de mulher.

Isso faz com que a voz que ouvimos nas narrativas que lemos seja sempre masculina.

Quando nos deparamos com um texto que não é escrito para mulheres – seja sobre política, questões sociais, críticas, textos técnicos – que não se apresenta com uma linguagem tipicamente associada ao feminino, a tendência natural, automática, é que a voz que esse texto ganha dentro de nós seja masculina.

Essa lógica nos coloca em armadilhas o tempo todo.  E aí nos referimos ao autor de um texto quando queremos debater uma ideia dele, mesmo que estejamos diante da autora, mesmo que estejamos escrevendo pra ela. É aí que quando lemos uma referência que mencione apenas o sobrenome de um autor especialista acreditamos quase que imediatamente que é um homem.

O que fazer contra isso é difícil de saber, creio que um movimento de tentar citar nomes completos de autoras mulheres sempre que forem referenciadas seria interessante, uma forma de tirá-las dessa invisibilidade literária. Buscar mulheres para ler, descobrir as diferentes linguagens dentro da literatura feita por mulheres também ajuda.

O mais imediato é ficar atento, não aceitar sempre o cenário inicial e automático que nossa cabeça nos apresenta.

Muitas vezes pode ser uma realidade moldada pelo machismo dos pequenos detalhes, esses que formam todos nós.

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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