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O dia em que a Primeira-Dama assumiu o comando da Casa Branca: um breve relato sobre Dolley Madison

Publicado por:
Guilherme Barcelos
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Como começa a história

Se James Madison, 4º Presidente da história dos Estados Unidos, foi um grande intelectual, político e expoente do constitucionalismo – Pai da Constituição Norte-Americana (1787), Redator da Bill of Rights (1789), idealizador do sistema americano de controle recíproco entre os poderes (checks and balances) e um dos principais pensadores da fórmula da judicial review em solo estadunidense, além de Secretário de Estado do Governo de Thomas Jefferson e Quarto Presidente da História dos Estados Unidos da América – é importante mencionar que o sobrenome “Madison” não resume a James, todavia.

 

E é nesse contexto que devemos lembrar de Dolley Madison, esposa de James, e Primeira-Dama dos Estados Unidos da América no interregno de 1809 a 1817, a verdadeira homenageada neste singelo texto.

 

Dolley Paine Madison (20 de maio de 1768 – 12 de julho de 1849) nasceu da união de John e Mary Coles Payne, ambos Quakers rigorosos, em 20 de maio de 1768. Ela foi criada na fé Quaker, que ensinava a igualdade entre mulheres e homens. Dolley levou esse ensinamento com ela ao longo de sua vida, nunca parecendo agir como se ela fosse de menor status porque era uma mulher. Seus pais mudaram a família Payne para a Filadélfia. Dolley se casaria, então, em 1790, com John Todd.

 

Dolley teve dois filhos desta união, John Payne e William. A epidemia de febre amarela que varreu a Filadélfia em 1793 levou a vida de John no mesmo dia em que o bebê William morreu. Embora John tenha feito de Dolley a sua herdeira, seu cunhado a deixou na quase pobreza até que ela tomou ações legais para obter o que era verdadeiramente seu. Ela também teve que lutar nos tribunais para ser a guardiã de seu próprio filho sobrevivente.

 

Em 1794, a mãe de Dolley era viúva e dirigia uma pensão para obter renda. Neste mesmo ano Dolley e James Madison se conheceriam nesta mesma pensão. Os dois começariam um namoro. O relacionamento não seria aprovado pela Society of Friends porque não havia um período de luto apropriado para John e porque James não era um Quaker. Quando Dolley e James se casaram em setembro de 1794, ela foi excomungada da igreja Quaker.

 

Isso marcou uma mudança libertadora em sua vida. Depois da morte de sua mãe, Dolley manteve a pensão em seu próprio nome, assumiu os inquilinos e ganhou a renda própria. Tempo depois ela e James se casaram. Depois do casamento, James se retirou da política e os dois viveram pacificamente na plantação dos Madison na Virgínia. Quando o aliado político e amigo íntimo de James, Thomas Jefferson, se tornou Presidente em 1801, ele estava convencido de retornar à política e atuar como Secretário de Estado de Jefferson. Assim o foi. Nos 16 anos seguintes, os Madison seriam o casal mais poderoso de Washington.

 

Uma pioneira na arena política

Dolley Madison foi um grande expoente de sua época, a ponto de ter sido conselheira política direta do Presidente (James Madison).

 

Muito mais do que suas predecessoras, Dolley abraçou o papel de Primeira Dama – poderíamos dizer que ela fora a Michelle Obama da época. Em verdade, Dolley criou o posto, não por imposição, mas por ações. E naturalmente.

 

Enquanto Abigail Adams atuou como consultora privada de seu marido, Presidente John Adams, Dolley era uma parceira pública para James.

 

Dolley foi a primeira a ser entrevistada por um jornal e a primeira a usar o seu papel público para desenvolver várias ações afirmativas. Como exemplo, citemos uma doação de 20$ (na época era muito dinheiro) e de várias vacas ao Washington State Orphans Asylum no pós-Guerra de 1812. No mesmo local, a primeira-dama de então confeccionou à mão várias roupas para as crianças que lá habitavam. E também promoveu publicamente esta causa na esperança de que outros cidadãos também ajudassem.

Não bastasse, D. Madison tentou insistente e publicamente sobrepujar o sentimento de muitas pessoas no sentido de que o novo país estaria à beira da derrocada. E como Primeira-Dama, ela também participou de debates no Congresso, encorajando publicamente outras mulheres a fazerem o mesmo.

 

Dolley e seu estilo ousado para a época: turbante e vestido com decote. (acervo: New York Historical Society)

 

Dolley igualmente teve grande responsabilidade na (re)união dos Federalistas e dos Republicanos, de modo a romper com a intensa batalha política que imperava no país até então – vale lembrar que amigos próximos, como John Adams e Thomas Jefferson, romperam não só as relações de amizade, mas também os mínimos resquícios de diplomacia, tudo em razão deste conflito político que marcou a República na última década dos oitocentos e na primeira década dos novecentos.

 

Em meio à guerra, coragem

Seus feitos, contudo, atingiriam o auge em plena batalha contra o exército britânico, a partir da famosa Guerra de 1812.

 

Em 1814, o exército real britânico tomou Washington, a capital da República. Prédios públicos foram incendiados. O Capitólio também não escapou. E esta também seria a sorte da Casa Branca. Trata-se da segunda guerra contra o Império Britânico, iniciada agora em 1812.

 

Ao longo da guerra, Dolley entregou apoio inabalável a James, mesmo dando discursos para aumentar a moral e mostrar apoio para o esforço de guerra – que eles estavam perdendo. Com os militares americanos diminuindo, James deixou Dolley na Casa Branca para se juntar aos oficiais do exército em Bladensburg, Maryland, em agosto de 1814.O Presidente James Madison, como comandante-chefe, se encontrava no campo de batalha. Doley se encontrava na Casa Branca.

 

Antes da partida, Madison instruiu Dolley a deixar a cidade. Ela, irredutível, disse que não sairia sem ele, salvo se não houvesse outra saída. “Não tenho medo”, esbravejava! Enquanto isso, os britânicos tomariam de assalto a capital. E as marcas de destruição avançavam quadra a quadra. Os oficiais britânicos tomaram a capital passo a passo. À medida que se aproximavam, começaram a atacar verbalmente e a ameaçar Dolley, não James, um sinal do verdadeiro poder político que detinha. As ameaças eram fartas. E uma delas era a tomada da Casa Branca e a feitura da Primeira-Dama como prisioneira. Mas não só. Como prisioneira, seria forçada a desfilar pelas ruas de Londres com os raptores.

 

Isso não desencorajou Dolley na sua tentativa homérica de aguardar James em Washington, até mesmo como uma forma de mostrar ao povo que o governo estava de pé e forte (!). Quando os britânicos avançaram, podia-se ouvir canhões estourando em batalhas próximas, e do topo da Casa Branca a Primeira-Dama só conseguia observar cidadãos e soldados abandonando a cidade. James ordenou uma escolta de 100 soldados armados para proteger a Casa.

 

A situação é descrita por Dolley em uma carta endereçada à sua irmã:

 

“Terça-feira, 23 de agosto de 1814. Querida Irmã
Meu marido me deixou ontem de manhã … Ele perguntou ansiosamente se eu tinha coragem ou firmeza para permanecer na casa do presidente até o seu retorno, no dia seguinte ou no dia seguinte, e com a minha garantia de que não tinha medo, mas para ele e o sucesso do nosso exército, ele me deixou, implorando-me para cuidar de mim e dos papéis do gabinete, público e privado. Desde então, recebi dois despachos dele, escritos com um lápis; O último é alarmante, porque ele deseja que eu esteja pronta a um momento de advertência para entrar na minha carruagem e sair da cidade; que o inimigo parecia mais forte do que o relatado, e que poderia acontecer que eles chegassem à cidade, com a intenção de destruí-lo […].”

 

À 23 de agosto de 1814, todos os cem soldados fugiram e a cidade era quase uma cidade fantasma. Dolley estava praticamente sozinha. James enviou-lhe uma mensagem do campo de batalha instando-a a sair de Washington imediatamente. Não havia alternativa. A Primeira-Dama deveria deixar a Casa Branca. E isso se daria a 24 de agosto de 1814.

 

Esta situação também é descrita em carta, senão vejamos:

 

“Desde o nascer do sol, girei meu espião em todas as direções, e observando ansiosa, esperei a aproximação do meu querido marido e seus amigos; mas, infelizmente! Eu posso descrever apenas grupos de militares, vagando em todas as direções, como se houvesse falta de armas ou de espírito para lutar por sua própria vida. Três horas – Você vai acreditar, minha irmã? Tivemos uma batalha, ou escaramuça, perto de Bladensburg, e aqui estou ainda, ao som do canhão! O Sr. Madison não vem. Que Deus nos proteja! Dois mensageiros, cobertos de poeira, vêm me pedir retirada; mas aqui quero esperar por ele…Nessa hora tardia, um vagão foi adquirido, e eu o enchi com documentos e os artigos portáteis mais valiosos, pertencentes à casa. Se ele vai chegar ao seu destino, o Banco de Maryland, ou cair nas mãos do exército britânico, os eventos devem determinar. Nosso amável amigo, o Sr. Carroll, veio apressar minha partida, e com muito mal humor comigo, porque insisto em esperar até que o grande quadro do general Washington seja garantido, e isso precisa ser desenroscado da parede. Esse processo foi encontrado muito tedioso para esses momentos perigosos; pedi que o quadro fosse quebrado e a tela fosse retirada. Está feito! e o precioso retrato colocado nas mãos de dois cavalheiros de Nova York, para guardar. E agora, querida irmã, eu devo sair desta casa, ou o exército em retirada me fará prisioneira […].”

 

Sob pena de se tornar prisioneira, Dolley teve que deixar a Casa Branca. E o fez. Cerca de duas horas depois, os britânicos chegaram no terreno da Casa Branca com tochas prontas para queimá-la.

 

A “primeira” Primeira-Dama salva o dia

 

No entanto, antes de partir, a Primeira-Dama verdadeiramente tomou o comando da Casa Branca, passando a comandar a estratégia a ser seguida. Fez reunir todos os mais importantes documentos do Governo. E, no interregno, deixando pertences pessoais do casal para trás, Doley também determinou a salvaguarda de alguns objetos de imenso valor. O valor não era pessoal, mas transcendental.

 

Que objetos eram esses? Um deles já foi descrito acima, o quadro original do Presidente George Washington, que enfeita a Casa Branca até os dias de hoje. Mas há mais. Além do quadro do General da Independência e Primeiro Presidente da República, Dolley tomou em mãos uma cópia da Constituição de 1787, bem assim a Declaração de Independência.

 

O ato acima descrito foi verdadeiramente heroico. E demonstrou uma grande sensibilidade. Um ato digno de uma estadista.

 

Qual foi a mensagem? O que isto representou, afinal?

 

O prédio poderia ruir. Mas os símbolos jamais!

 

Selo comemorativo lançado em 1980

E enquanto estivermos de posse disso, imaginamos aqui o que a Primeira-Dama deve ter pensado, estaremos de pé!

 

Dias após a partida, James e Dolley retornaram a Washington. O governo estava de pé. Logo depois a Guerra terminaria. Um acordo de paz seria selado. E a história jamais se esqueceria daqueles acontecimentos. Muito disso é devido a “Dolly” Madison.

 

Eis, portanto, uma personalidade não muito abordada pelos livros. Mas que merece toda atenção e, mais ainda, toda a admiração.

 

Poderíamos citar vários outros feitos. Paramos por aqui. Que os leitores se sintam devidamente encorajados a pesquisar sobre essa imponente figura. De toda e qualquer maneira, é por essas e por outras razões, no final das contas, que o título de “Primeira-Dama” foi cunhado pela vez primeira em seu funeral, em homenagem à sua memória, pelas palavras do ex-Presidente da República Zachary Taylor – “a primeira-dama da terra por meio século”, disse.

 

Dolley Madison, a primeira” Primeira-Dama!

 

 

 

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Textos consultados:

http://www.taraross.com/2016/08/this-day-in-history-dolley-madison-saves-washingtons-portrait/

https://www.smithsonianmag.com/history/how-dolley-madison-saved-the-day-7465218/

http://www.womenshistory.org/articles/first-ladies-dolley-madison#main-content

 

Sobre a autora
Guilherme Barcelos

Mestrando em Direito pela Unisinos. Advogado. Amante das liberdades, zeloso pela igualdade e utópico defensor da fraternidade. Um acanhado, mas esforçado, aprendiz.

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