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O fenômeno Rupi Kaur e a nova literatura feminista

Publicado por:
Flor Reis
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O livro da Rupi me chegou pelo correio numa noite qualquer e, desde as primeiras páginas, me desferiu socos certeiros na boca do estômago. A princípio estranhei um pouco aquela identificação, e questionei até o meu direito de sentir tanta afinidade, tanto entendimento. A Rupi é claramente uma mulher que viveu situações de muito mais vulnerabilidade do que eu. Alguns poemas falam de estupro e de abusos físicos e emocionais explícitos, muito mais fortes do que qualquer coisa que eu – jovem branca de classe média que estudou a vida toda em colégios particulares – tenha vivido. Me perguntava: será que estou me vitimizando? Será que tenho o direito de pretender saber do que ela está falando? Na medida em que prossegui na leitura, fui entendendo que a simples condição de mulher já nos faz mais suscetíveis e sensíveis a algumas violências, sejam elas explícitas ou muito sutis. Ah, sim, já fomos apresentadas. Nem todos os tapas na cara e socos no estômago são físicos, afinal.

 

Rupi tinha 21 anos quando escreveu Outros Jeitos de Usar a Boca – no original, Milk and Honey. E o que essa menina tão jovem teve a dizer, e que falou tão alto e forte a ponto de colocar o livro – um livro de poesia – no primeiro lugar da lista dos mais vendidos do The New York Times? Há quem diga que é mais um fenômeno de Instagram, que não é poesia de verdade, que falta rebuscamento, técnica. Há sempre quem prefira o tudo métrica, rima e nunca dor.

 

 

Eu respondo: mas a vida é real e de viés. Na condição de amadora convicta, que faz planos de seguir pela vida se apaixonando e se deslumbrando com o olhar pueril de uma criança, fui arrebatada pela Rupi. Me senti tão próxima dela, em seus dramas familiares (sua mãe / tem essa mania / de dar mais amor / do que você pode carregar / seu pai está ausente / você é uma guerra entre dois países / o dano colateral / o paradoxo que os une / mas também os separa),

 

 

suas paixões (ele tocou / meu pensamento / antes de chegar / à minha cintura / meu quadril / ou minha boca / ele não disse que eu era / bonita de primeira / ele disse que eu era extraordinária ),

 

 

seus finais (eu tive que ir embora / eu estava cansada / de deixar que você / me fizesse me sentir / qualquer coisa / menos que inteira),

 

e recomeços (perder você / foi o que me levou / a mim mesma).

 

 

Ela me inspirou a florir, a escancarar minha dor e minha força.

Tenho descoberto que é esta a maior beleza da literatura feita por mulheres e para mulheres, especialmente aquelas do nosso tempo: jovens e fortes e complexas, tão diferentes e tão semelhantes a mim. É uma literatura direta, franca, sem subterfúgios, eufemismos ou filtros. Sem amarras. É uma literatura que nos que ecoa fundo, que nos fortalece, nos une. São vozes tão nossas.

A primavera feminista está aqui, e ela não vai embora tão cedo.

 

 

Esse texto é uma parceria d’a Fala com a Esc. Escola de Escrita e o Grupo de Estudos Feministas Capitu

 

Sobre a autora
Flor Reis

Feminista, progressista, de esquerda. Libriana com ascendente em touro. Operadora do direito que teima em cultivar a fé na justiça. Hedonista, ridiculamente deslumbrada pela vida, sem controle do volume da própria voz. Demasiada. Aspirante a cantora e escritora. Livre.

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