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Para desnudar o corpo e a alma

Publicado por:
Eneida Desiree Salgado
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Escrevo sobre democracia, eleições, partidos políticos e magistrados. Escrevo sobre a relação entre Direito e Moral e sobre mulheres na política. Escrevo tecnicamente (ou ao menos essa é a pretensão). A escrita técnica é muito cheia de amarras, de regras, de referências. Não há lugar para a poesia, para o desespero ou para o manifesto, embora por vezes eu me escute em cima de um caixote em um ou outro parágrafo; no máximo, suporta-se uma ironia fina, fatalmente destinada a ser mal-entendida. Em tempos como esses, tratar dos temas a que me dedico é especialmente dolorido, porque não há muito o que fazer com a teoria e a dogmática quando a realidade nos estampa na cara a inutilidade de preceitos e limites.

Em uma crise, fui passear em uma livraria. Apesar dos prazos, da ansiedade e da angústia – ou exatamente por causa disso tudo – fui com o propósito de folhear despretensiosamente obras literárias. Não passei da primeira. Bati o olho na prateleira e já dei de cara com uma capa vermelha com o contorno do perfil de uma mulher gorda em laranja, com o título e o nome do livro em minúsculas e um elogio do Mia Couto. Pronto, abri o livro. E li, ali mesmo, sem poltronas nem café, cinquenta e tantas páginas de um fôlego só. O livro me arrebatou, como uma passagem secreta para minhas inquietações pessoais, para o meu mal-estar intrínseco.

O livro, em homenagem à mãe, parte de três citações sobre a alma, o passado e experiências pessoais, de uma epígrafe sonora que vai, cronologicamente, de Nina Simone a Lana del Rey e traz a advertência: “Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade”. Assim. Não tinha como escapar desse hiato em minha vivência cotidiana, em que penso para fora e em torno, mas quase nunca sobre mim mesma.

A gorda – a protagonista – começa falando da cirurgia que a levou a perder quarenta quilos e de seus sentimentos a esse respeito. Essa relação com o corpo e a imagem é a essência de sua experiência de vida e de sua percepção do mundo. A partir de seu desconforto consigo mesma (e quem de nós mulheres escapa disso, ainda que magra de esforço, magra de neurose ou magra de ruim?), sua vida na família, nas cidades, na escola, no trabalho, no amor está destinada a ser infeliz. Sempre infeliz porque não lhe parece possível ser feliz como ela é, ainda que lhe sejam permitidos arroubos de felicidade instantânea, intensa e efêmera. Sua relação com os pais, principalmente com a mãe, é descrita de uma maneira crua, em que a filha, que viveu sem eles durante algum período, ora lhes deseja ver pelas costas, ora não cabe em si de tanto afeto.

Os capítulos são nomeados pelas peças da casa, e sua relação com o espaço, com e sem outras pessoas, e de como elas são preenchidas pelo passado e pelo presente, é a linha que costura os pensamentos e sentimentos. Há passagens eróticas e descrições de nudez explícita da alma. A gorda fala de si com uma crueza que impacta, como nós nos sentimos sobre nós, mas sem verbalizar, fingindo não sofrer a crueldade que nos impomos. A fome que nunca é saciada, o desassossego de ser quem somos, de parecer como achamos que parecemos e o desespero de não ser digna de receber afeto, tudo isso está no livro e está em mim. Isabela Figueiredo, ou Maria Luísa, me estampou isso na cara.

Enfim, a literatura me salvou, ao menos até a próxima crise. Pode ser que a gorda não cause isso em você, mas ainda assim vale pela prosa bem escrita, pelas remissões a Moçambique, pela descrição de Portugal (apimentada com comentários políticos), pela amarração da narrativa. Isabela Figueiredo, cuja biografia se parece com a da protagonista de seu primeiro romance, é, sem dúvida, uma mulher para se ler.

 

 

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* A Fala acolhe a expressão de cada uma. As autoras do blog não interferem nas opiniões externadas, bem como nas escolhas das colaboradoras quanto ao uso da linguagem, ao estilo de escrita, à gramática e à sintaxe. A revisão feita é meramente técnica, para correção de eventuais erros de digitação, todo o resto é tratado como opção de estilo da autora.

Sobre a autora
Eneida Desiree Salgado

Feminista, meio jurista, meio socialista, esperando o dia em que possa viver da literatura.

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