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Quem tem medo de Rita Lee?

Publicado por:
Adelaide Strapasson
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Nunca é desnecessário recomendar a leitura da autobiografia da Rita Lee porque, ora, Rita Lee é Rita Lee. Mas se ilude quem pensa que tudo foi cor-de-rosa na vida dela. Afinal, você se recorda de quantas mulheres foram líderes de bandas de rock no Brasil dos anos 1960? Lembra de uns caras chamados Arnaldo Baptista e Sérgio Dias? Eles dois, mais a Rita Lee, integraram a banda Mutantes, da qual ela foi solenemente expulsa por “não ter calibre como instrumentista”. Hã?

 

 

Sim, não sem antes ter dividido por três todos os direitos das músicas que compunham – muitas vezes, compostas apenas por ela. Sim, ela reconhece sua ingenuidade nos negócios. No fundo, ela não “combinava” com “ozmano”.

 

 

Em vez de se atirar de joelhos chorando e pedir perdão por ter nascido mulher, Rita Lee foi trilhar outros espaços: criou o grupo Tutti-Frutti, e depois fez carreira com Roberto de Carvalho, o guitarrista que se tornou o seu marido – não necessariamente nessa ordem.

 

 

No final dos anos 1970, em plena ditadura militar, Rita Lee canta Mania de você, na qual a mulher se torna a protagonista do seu próprio prazer. É preciso lembrar que, nesta época, era tabu falar sobre o prazer feminino e o sexo era visto e cantado usualmente do ponto de vista do homem. Esse tema do prazer da mulher também esteve presente em Banho de espuma, Lança perfume e muitas outras canções.

 

 

Se foi preciso um Roberto de Carvalho para que Rita Lee descobrisse o orgasmo e a dupla produzisse canções inspiradíssimas, é importante lembrar que a mulher não precisa necessariamente de um homem para se descobrir sexualmente. Hoje há mais informação, brinquedos eróticos disponíveis e a masturbação pode ser discutida mais abertamente.

 

 

Pode?

Bem, espero que sim. Já que pode ser que você não faça a menor ideia de quem seja Arnaldo Baptista ou Sérgio Dias, mas eu tenho certeza que você sabe quem é Rita Lee. Bem feito para eles, que sucumbiram ao próprio machismo. Que bom para as mulheres, que podem ver na Rita Lee, uma brasileira raçuda que soube emergir de suas cinzas inúmeras vezes.

 

 

 

LEE, Rita. Rita Lee: uma autobiografia. 1. ed. São Paulo: Globo, 2016.

 

Esse texto é uma parceria d’a Fala com a Esc. Escola de Escrita e o Grupo de Estudos Feministas Capitu

 

Sobre a autora
Adelaide Strapasson

Advogada, licenciada em Letras, Mestre em Linguística, Especialista em Gestão de Pessoas, Coach e é Mediadora de Conflitos. Ficou fã da Rita Lee na sua adolescência, justamente quando ela cantou o prazer feminino. Isso fez toda a diferença na descoberta de sua sexualidade.

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