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Relacionamentos vigiados: a liberdade impossível da mulher adulta

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Essa história horrível da mulher espancada – por um homem com quem manteve contato por oito meses antes de convidar para um jantar – me fez pensar que talvez muita gente não saiba como é a vida de uma mulher solteira num país em que tantas mulheres são mortas só porque saíram com alguém, só porque usaram um aplicativo, só porque convidaram ou aceitaram um convite para jantar, só porque queriam, enfim, viver sua vida e desfrutar de pequenos prazeres terrenos.

Sabe, a gente cresce pensando que quando formos adultos não precisaremos dar satisfação para mais ninguém. Que vai ser essa nossa grande liberdade, poder sair quando quiser, com quem quiser, para fazer o que quiser e voltar quando decidir.

Pois, se você é uma mulher, você sabe que não é bem assim. Entre as mulheres e suas amigas e dinâmica é sempre outra.

Pra começo de conversa, a gente tem medo de sair sem dizer pra onde está indo.

A gente vai num primeiro encontro com o rastreador do celular ligado e uma amiga atenta do outro lado, acompanhando nossos passos e vendo se a gente sai da rota.

A gente manda print dos perfis dos caras nas redes sociais pras amigas, pra eles saberem o rosto da pessoa. Manda o endereço da casa dele se vai pra lá. Manda o bar em que foi combinado o encontro.

Se o Uber erra a rua mais de uma vez a gente pega o celular imediatamente e compartilha a rota com alguém de confiança. A gente comemora quando vem motorista mulher.
A gente compartilha a rota também se o caminho é longo e decide dar uma dormidinha no carro.

A gente se preocupa em estar com a bateria do celular cheia quando sai.
A gente não dorme direito enquanto a amiga que a gente tá “acompanhando” no encontro não dá alguma notícia.

A gente pede o Facebook da pessoa antes de marcar encontro e tenta dar uma olhada pra encontrar sinais de qualquer coisa. A gente mata boa parte da espontaneidade de um primeiro encontro por medo.

A gente compartilha entre as amigas as instruções de o que fazer, pra onde ir e o que falar num hospital se forem vítimas de violência sexual. (Aqui em São Paulo, aliás, o HC da USP tem um núcleo de atendimento e acolhimento especializado).

Estamos o tempo todo criando estratégias para não estarmos sozinha, ainda que estejamos. A gente está o tempo todo reconhecendo a sorte de ter uma rede de amizades que nos acompanhe nesse nível de intimidade, ainda que de longe.

A gente está sempre, sempre, sempre com medo.

E o mais maluco disso tudo, é que se você olhar bem para todas essas estratégias femininas, quase nenhuma delas impede que qualquer coisa aconteça.

Fazemos isso só para que, ao menos, localizem nosso corpo.

Porque quando um homem decide nos matar, as estatísticas confirmam, não há muito o que fazer.

Nosso grito hoje é para que tenham ao menos a decência de não nos culpar pelo horror que criaram, de não nos culpar por tentarmos viver nossas vidas.

Já seria um primeiro passo.

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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