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Um corpo todo seu

Publicado por:
Paula Bernardelli
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Eu odeio meu corpo todos os dias. Mas tem dias que eu esqueço disso.

Parece triste dito dessa forma, mas a verdade é que isso me acompanha já tem tantos anos que já é bastante natural pra mim.

Falar sobre meu corpo nunca foi tarefa fácil. Além da evidente exposição excessiva, a relação que criei com meu corpo é tão nociva que, não bastasse a vergonha do próprio corpo que já me consome, há ainda o esforço de manter essa vergonha escondida.

Manifestar sofrimento também é muito difícil. É ser fraca mais uma vez, e mais uma vez. É parecer que quer confete, quer elogio. Mas não é. Nunca foi. Tem vezes que é só desabafo, tem vezes que é um pedido de socorro.

A verdade é que quanto mais eu tento me libertar dos pensamentos nocivos sobre mim mesma, mais vergonha eu sinto por falhar, sempre e sempre, nessa missão.

Eu sei que não sou só eu. E sei também que as pessoas, de um modo geral, são bastante insensíveis com isso. Grande parte das vezes não é nem culpa delas. Elas foram ensinadas a ser assim, a comprar o discurso da saúde, da preocupação, da forma perfeita, do padrão exato. Isso existe em todos nós. Mas dói.

O movimento feminista, espaço no qual me sinto acolhida em tantos aspectos traumáticos da vida, me relembra quase que diariamente o quanto eu falho por não me amar, por não me aceitar, por me importar tanto em ser aceita. Dói.

As mulheres, em sua imensa maioria, são muito maldosas com isso. É algo já tão cravado em nós que ninguém percebe que quando comemora o manequim reduzido, quando parabeniza a amiga que emagreceu, quando fala sobre corpos magros como corpos melhores, faz isso sempre com um lembrete: o corpo, maior, gordo, fora do padrão, é repulsivo e indesejado.

As mesmas mulheres que falam de opressão, que falam de amor próprio, que falam de sororidade, fazem questão de nos lembrar que nossos corpos não são bonitos, não são corretos.

A verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a maioria delas em algum momento já deixou claro, mesmo indiretamente, que ter um corpo como o meu seria a morte para elas.

Elas surtam pela repulsa que sentem de seus 4 quilos “a mais”, comentam constantemente o quanto a magreza é sempre tão mais linda. É estranho. Pra elas eu já abri meu coração falando sobre o quanto alguns comentários são ofensivos, sobre  o quanto uma mulher magra falando de como ela está “e-nor-me” e de como isso é terrível pra ela, pode ofender. Elas que eu amo tanto. Elas. Morreriam. Sentiriam repulsa de seus corpos se fossem como o meu, porque sentem pavor da ideia de qualquer movimento dos seus próprios corpos neste sentido.

Elas me ensinam, diariamente, que meu corpo é repulsivo, indesejado, indesejável, vergonhoso.

Mas depois dizem que eu sou linda. Que me acham incrível, que eu deveria me achar maravilhosa. As intenções são boas, eu sei. Até acredito que me achem linda mesmo. E veja, eu também não me ofendo, eu sofro. É bem diferente.

E não quero que pareça o que não é: isso aqui não é sobre elas e nem contra elas. É sobre mim, sobre a dificuldade de viver presa em um corpo que não tenho capacidade de amar e nem capacidade de alterar.

Porque a verdade é que elas falam isso por estarem presas, claro que em uma cela bem diferente, nesse mesmo cárcere. Estivesse eu liberta, não me faria sofrer nadinha.

A verdade é que não importa o grupo, as amigas, o feminismo, ninguém é capaz de destilar mais crueldade sobre mim do que eu mesma. E quando isso começa a acontecer o freio não é menos cruel, ele vem com um aviso de “pare, você não está se amando, você é fraca. Você falhou, de novo.”

A verdade também, é que odiar o próprio corpo é algo tão simples porque, embora seja um sentimento profundamente solitário, é uma ideia imensamente coletiva.

E se na solidão da batalha contra nós mesmas é tão difícil vencer, é inevitável pensar que isso deveria ser um trabalho conjunto. Seríamos capazes. Poderíamos tentar.

Mas tente jogar essa ideia. Eu te desafio!

Tenta falar pra sua amiga fã da blogueira fitness que não importa mesmo se ela quer emagrecer mais, ela pode fazer o que quiser com seu corpo, mas que precisamos com urgência, todos e todas nós, mudar a forma social e coletiva de tratar esse tema.

Porque a questão é essa, assim como o feminismo já está cansado de dizer que não luta contra os homens, mas contra estruturas sociais cruéis,  a luta contra a pressão estética também não é uma guerra contra quem decide emagrecer, não é uma luta contra quem quer mudar seus hábitos e comer só orgânicos. É só um alerta de que a forma como conduzimos essa mudança, a forma individual e coletiva de tratar o valor que se dá aos corpos está errada, é doentia e precisamos fazer alguma coisa.

Precisamos com muita urgência resolver isso porque isso é perverso. E precisamos com mais urgência que todos percebam que a desconstrução desses padrões e a construção de um mundo onde as pessoas não se odeiem com tamanha intensidade passa por todos nós, por policiar nosso discurso, por abrir nosso ouvidos, por treinar nossos olhares.

A pressão estética que nos consome tanto é um braço armado da guerra pelo silenciamento feminino. Tira tantas de nós do foco da vida que importa e nos coloca pra escorregar em espirais de auto depreciação que tendem ao infinito.

A pressão estética, que é construída diariamente com a ajuda de tantas de nós, faz com que muitas mulheres se julguem menos dignas de amor.

Eu já conheci relatos tristes de mulheres que acreditavam que seus companheiros nunca seriam satisfeitos pois elas nunca seriam boas o bastante por nunca serem magras o bastante.

São mulheres que acreditam com sinceridade que a felicidade mora ali, naquela roupa dois números menor. E elas, por não alcançarem aquele número, são menos merecedoras da felicidade.

Você já pensou sobre isso? É uma insanidade só!

Eu sei que falar do discurso de cada um parece um controle excessivo, eu sei que pra muita gente parece “mimimi”. Eu sei. Não é de hoje e nem só pra isso que a gente escuta isso. Eu sei também que você “não está falando das outras pessoas”, “só está falando do que você prefere”,”só está falando de como você se sente bem”. Eu sei.

Mas eu sei também que não dá mais pra tirarmos nossa responsabilidade disso. Não dá mais pra falar do machismo alheio e dar tanta munição pra essa arma o tempo todo. Podemos nos sentir bem como for, com o corpo que for, da forma que for, mas é urgente escolher um lado nessa luta.

Não dá mais pra falar de sororidade e não abraçar nossa necessária mudança de atitude sobre como fazemos outras mulheres se sentirem.

Não é proibido não se importar, nunca é. E eu concordo que cada um tem que lidar com seus problemas de auto estima. Mas precisamos concordar que a questão estética já deixou de ser um problema unicamente individual já tem muito tempo. Nós estamos tão mergulhadas nisso que mal vemos.

Isso aqui não é contra sua nova dieta, contra sua blogueira favorita, contra sua musa fitness inspiradora. Isso aqui é sobre escolher a pessoa que queremos ser no mundo, que queremos ser pros outros.

A forma como lidamos com nossos corpos está errada. Eu repito, insisto, e vou falar isso até que isso mude. E precisa mudar.

A gente precisa. Eu preciso. É urgente. É por sobrevivência. É por amor. É um desabafo. É também um pedido de socorro.

Sobre a autora
Paula Bernardelli

Feminista por necessidade, desde criança encontrou na verbalização uma arma de resistência, escreve porque acredita nas palavras como fonte inesgotável de magia, na importância do debate e na força da pluralidade de vozes.

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