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Sandalinha fora do armário

Publicado por:
Gabriela Freitas
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Eu tive uma infância que, com certeza, seria aclamada pelos nossos “padrões sociais”. Tive todas as Barbies possíveis, fiz aulas de ballet e de piano, gostava de esmaltes e batons, não subia em árvores, não corria pelas ruas e nem gostava de praticar esportes. Pronto, eu estava “salva”! Tinha alcançado o modelo perfeito para ser a menina ideal: feminina, vaidosa e, principalmente, heterossexual.

Mas onde foi que tudo “deu errado” e eu me descobri, aos 28 anos de idade, apaixonada por uma mulher?

O que “deu errado” foi que esse estereótipo em que eu me encaixava não me permitia sequer questionar se eu era ou não heterossexual. Onde já se viu uma lésbica que gosta de salto alto? Quem já viu uma lésbica que passou toda a infância brincando de boneca? Eu nunca tinha visto. O modelo de homoafetividade que eu conhecia envolvia “mulheres masculinizadas”. Só se desconfiava da sexualidade de uma mulher se ela não fosse feminina o suficiente para os padrões sociais, só se ela não se encaixasse naquele modelo que deveria atrair a atenção e os desejos sexuais de um homem.

Durante a minha infância, não imaginava que uma mulher como a Fernanda Gentil, por exemplo, pudesse ser homoafetiva. Percebi, ao longo do tempo, que nós, mulheres, fomos criadas para atender à uma expectativa social, que era chamada de feminilidade. Precisávamos ser magras, vaidosas, bem vestidas, usar saltos e maquiagem para sermos femininas. Se nos encaixamos nesses modelos, todos os homens do mundo nos querem. E, se todos eles nos querem, seria um desperdício se nós não os quiséssemos. Estava aí implementada a tal heteronormatividade.

Por causa disso, eu passei quase a vida inteira me intitulando heterossexual. Nunca questionei. Nunca nem havia cogitado a possibilidade de me relacionar com uma mulher.

Aos poucos, eu percebi o tamanho da bobagem que era enxergar o estereótipo da mulher lésbica a partir da ideia de cabelos curtos, unhas sem fazer, roupas largas, voz grossa…. Parte do que me fez abandonar esse estereótipo foi o feminismo. Como os grupos de debate em redes sociais mudaram a minha mente!

Mas teve algo além: teve a Fernanda Montenegro interpretando uma mulher lésbica, teve a Daniela Mercury casando com uma mulher, teve a Cate Blanchet protagonizando um filme homoafetivo. Esse “algo além” chama-se representatividade. Encaixar-me no estereótipo “feminino” não era capaz de determinar por quem eu iria ou não me apaixonar.

Por meio da representatividade, eu me permiti encontrar minha identidade. Não existe só um modelo padronizado de sapatão e hoje eu sou uma Sandalinha que saiu do armário pra ganhar o mundo.

 

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*A imagem em destaque é a tatuagem da Gaby, que traz uma frase do Humberto Gessinger que ela ama: “Sentir com inteligência, pensar com emoção”.

**”Sandalinha” é um termo referido às lésbicas que gostam de se maquiar, usar salto, decotes, etc. Pode ser que alguém se utilize dela pra rotular uma mulher de forma pejorativa. Mas, aqui, a Gaby ostenta o título com orgulho. Porque se apropriar da linguagem também é empoderamento.

***O lugar da fala acolhe a expressão de cada uma. As autoras do blog não interferem nas escolhas das colaboradoras quanto ao uso da linguagem, ao estilo de escrita, à gramática e à sintaxe. A revisão feita é meramente técnica, para correção de eventuais erros de digitação, todo o resto será tratado como opção de estilo da autora.

Sobre a autora
Gabriela Freitas

Professora e Militante das causas feministas e LGBT. Carrega bandeira, fardo que já disseram ser muito pesado para mulher. Mas não é.

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